domingo, 19 de novembro de 2017


                   O EXEMPLO DE GÖRING

 

      Mondorf-Les-Bains.
         Foi para um hotel termal de luxo que o alto comando aliado, depois de capturados, mandou sob prisão uns quantos máximos responsáveis nazis, Von Ribbentrop, Keitel, Jodl, Dönitz, Rosenberg, Speer, Ley, Streicher, Rosenberg, Kaltenbrunner, Frank, mais uns tantos, e, mais importante do que os ditos, Rudolf Hess; e, ainda mais importante do que Hesse, Hermann Göring.
 
 
         Murmurações nos meios militares vencedores quanto à benevolência carcerária com que os considerados maiores criminosos da História contemporânea eram tratados, bons quartos, boa comida, alguma deferência ainda devida aos altos cargos ocupados no Reich, levaram à transferência deles para a prisão de alta segurança de Nuremberg, próxima do tribunal onde mais tarde viriam a ser julgados.
 
 
         Desde a estadia em Mondorf-Les-Bains que equipas de psicólogos e psiquiatras pairavam em volta dos criminosos nazis na ânsia (por assim dizer) de avaliar o estado mental de cada um deles, posto que parecia impossível ao senso comum das autoridades aliadas que tão sanguinários facínoras pudessem ser gente normal e livre da aleijões psíquicos de monta.
         Sigo um livrinho que me veio parar às mãos escrito por um historiador cujo esquisito nome nunca tinha ouvido, Jack El-Hai. Que me conta que um verdadeiro enxame de psis caíra em peso em Mondorf-Les-Bains à compita para examinar os famigerados responsáveis por uma guerra devastadora e por milhões de mortos.
Era preciso conhecer, e depressinha, as motivações que haviam determinado os campos de concentração, os fornos crematórios, a solução final para os judeus, as perseguições, as torturas e tudo o mais que se sabe. Se conseguissem penetrar aquelas mentes seria um enriquecimento científico que talvez permitisse evitar futuros desastres semelhantes.
 
Da mente dos criminosos nazis mais notórios se partiria então para o aprofundamento do carácter do próprio alemão comum, o povo que tinha permitido (e aplaudido) tão calamitosos desmandos. Até houve quem propusesse matá-los com um tiro no coração de forma a não danificar os tecidos cerebrais destinados a ser dissecados. Urgente era detectar naquelas cabeças os sinais de uma doença específica: a forte vontade de praticar o mal.
 
                                                                                           
 
De entre os psiquiatras que se apresentaram, os altos comandos escolheram para chefiar a equipa um que não se tinha apresentado, americano, capitão médico, Douglas Kelley.
Haveria uma particular personalidade nazi a que fosse plausível atribuir tantas e tão desgraçadas malfeitorias? Poder-se-iam extrair das análises psíquicas as razões do fulminante sucesso político e militar nazi e assim prevenir a repetição da tragédia?
Estava-se em 1945, não esquecer.
 
                                                                                                        
 
O Dr. Kelley pretendia com a sua acção retirar lições sobre as forças obscuras que haviam produzido o inimaginável caos na Europa. E de caminho viu o seu furo pessoal e profissional. Chegaria à vida civil e escreveria livros e proferiria conferências baseadas naquela inigualável e inesperada experiência, e assim ganharia fama e bom dinheiro.
Logo desde os primeiros contactos Douglas Kelley registara ser Hermann Göring, o chefe da temível Luftwaffe, o nomeado delfim de Hitler, a personalidade mais marcante do grupo, o tipo mais inteligente, mais subtil e sofisticado, um sedutor, um manipulador. Dava nota de um cérebro desenvolvido, equilibrado, se bem que narcísico em altíssimo grau. Fisicamente, era uma força da natureza, alto, amplo, dinâmico, irradiante de poder. Para um psiquiatra, Göring era de longe o mais interessante.
                                                                                                        
 
Uma piada de Göring; um alemão isolado é um bom tipo, dois alemães formam imediatamente uma aliança, reúnam três alemães e terão uma guerra; um inglês sozinho é um imbecil, dois ingleses juntos fundarão um clube, e quando forem três teremos um império; um italiano é sempre um tenor, se forem dois será um duo de tenores, três são um desastre; e se um japonês é um mistério, dois japoneses serão ainda um mistério e três japoneses um mistério ainda maior.
Göring contava destas e ria que nem um perdido.
 
                                                                                        
 
Ao pretender desvendar os segredos do funcionamento das mentes nazis o psiquiatra Kelley aventurava-se num terreno conceptualmente movediço, tão depressa psiquiatria, tão depressa criminologia. As origens de um comportamento criminoso como coisa do foro genético do indivíduo, ou decorrência de um ambiente social propício, ou as duas coisas combinadas?
Julgo eu que ainda hoje a mesma pergunta é feita.
Evocações do celebérrimo médico patologista Cesare Lombroso, que no princípio do século XX acreditava que o delinquente já nascia com todos os dados psíquicos que mais tarde ou mais cedo o puxariam para a desgraça. Foi desacreditado. Mas a interrogação permaneceu sem resposta convincente.
 
                                                                                           
 
Também foi Lombroso que lançou a criminologia para os lados da psiquiatria. O criminoso, por assim dizer nato, seria um ser impulsivo, desprovido de afectos e auto-controlo, aspectos distintivos a que haveria de se reconhecer alguma razão. E foi então que os psis começaram a ser chamados à barra dos tribunais para testemunhar sobre a saúde mental dos réus – hoje chamados arguidos. E era uma pergunta simples: o réu tem ou não tem condições psíquicas para distinguir o que é bem e o que é mal?
Mais tarde, os estudos desse foro identificaram a importância dos desarranjos de personalidade em grande parte das condutas delinquentes, e falou-se de exacerbação de narcisismos e paranoias como causas de comportamento anti-social.
 
 
Será a Alemanha Incurável? Um livro escrito em 1943 por um psiquiatra americano, Richard Brickner. O capitão médico Douglas Kelley leu esse livro e pensou nos crimes do nazismo como se fosse caso de estudar as condutas de um paciente seu.
          Porque se muitos cidadãos alemães eventualmente gozavam de boa saúde mental, os actos do governo do país configuravam o que os médicos diagnosticavam em indivíduos criminalmente problemáticos.
Teatro da Ópera de Berlim. Uma homenagem a Hitler nos primeiros meses da guerra. Está presente um jornalista americano chamado William Shiver, que olha com atenção para os rostos dos manifestantes, “as caras estavam deformadas pela histeria, as bocas urravam e os olhos brilhavam de fanatismo ao contemplarem o novo messias.”
 
 
Se os alemães daquele tempo não eram paranoicos, eram, de todo o modo, altamente permeáveis a influências paranoicas, conclui o jornalista.
“O Reich está preparado para reduzir a Europa à fome, se tal permitir que a Alemanha conquista a sua auto-suficiência alimentar”. Quem o disse nos primeiros tempos da guerra? Justamente o principal dos pacientes a cargo do Dr. Kelley, o extrovertido sedutor Hermann Göring.
Uma preliminar observação feita por Kelley ao paciente Göring leva-o a pensar que o ex-Marechal do Ar do III Reich aderira ao nazismo por nenhuma outra razão que estivesse para lá da sua ambição pessoal e de uma desenfreada sede de poder. Qual devoção por Hitler, qual carapuça… qual acrisolado amor pela Alemanha, qual quê… a preservação da raça ariana?, pff, era o que menos lhe importava. Aderir ao NSDAP desde os triunfantes primórdios e chegar ao topo. Isso sim. Kelley nunca conhecera ninguém tão exuberantemente egocentrista.
 
 
O topo dos topos atingira-o ele, Göring, mas ai, em deploráveis tempos e condições. Tempos de derrota e condições de aniquilação da Alemanha. Nomeado por Hitler como seu sucessor – depois da queda em desgraça de Hess -, Göring torna-se de facto senhor das alemanhas, mas só depois do suicídio do mestre. Demasiado tarde. E quais alemanhas? Já não havia o que se pudesse chamar de Alemanha. Führer do Reich, enfim. Mas qual Reich? Para mais, quando o verdadeiro Führer o acusara da traição de querer chegar à fala com os Aliados (com o próprio Eisenhower) e por isso, dias antes de se suicidar, o condenara à morte.
Führer sem Reich e marechal sem tropas. Era o estatuto de Göring quando capturado, quando mandado para Mondorf-Les-Bains e a seguir para o xilindró de Nuremberg. Acusado de extermínio de milhões e de fomento de uma guerra de conquista contra povos pacíficos.
Gabava-se. Gabava-se, por exemplo, de ter sido o único entre os seus companheiros de cativeiro em Nuremberg a fazer frente a Hitler, e quando as autoridades americanas o viam como simples yes man do Führer.
 
 
Ou talvez sim, admite Göring ao seu psiquiatra. “Mas então, doutor, apresente-me um no man alemão que pelos dias de hoje não esteja a uns bons seis pés debaixo de terra.”
Não obstante a situação, Göring era um pachola bem disposto, charmeur, contador de histórias. Um psicopata, segundo as normas. Um homem de comportamentos públicos razoáveis, normalíssimo cumpridor das regras sociais, a encobrir os profundos instintos selvagens e a total ausência de empatia.
 
 
Outra personagem. Ernst Röhm. Grande chefe das SA, a milícia para-militar, a tropa de assalto do partido para as lutas de rua contra judeus e comunistas (a cara dele era um mapa de cicatrizes), um duro, apesar de consabidamente homossexual. Nazi da primeira hora, amigo fidelíssimo de Hitler e amicíssimo também de Göring.
 
                                                                                               
 
Mas tinha um poder no partido e uma influência sobre Hitler que Göring não tinha e ambicionava ter. E na noite de 30 de Junho para 1 de Julho de 1934 acontece a célebre Noite dos Facas Longas. Centenas de militantes das SA reunidos num hotel à beira de um lago numa orgia de álcool e sexo são friamente assassinados. Ideia de Göring, segundo declarou - o que aliás ponho em dúvida. Os SA sobreviventes são presos, incluindo Röhm, que vem a ser executado na prisão, a mando de Göring – pelo que ele disse.
 
 
Como foi possível que Göring tivesse ordenado o assassínio de um companheiro, de um velho amigo de tantas lutas comuns? Göring fita silenciosamente o Dr. Kelley. E responde:
- Doutor Kelley… eu devo tê-lo sobrestimado. E pelo que percebo, o senhor é um imbecil – Göring (narração de Kelley) levanta então os largos ombros, mostra a palma das mãos, e remata: - Como foi possível ter ordenado a morte do meu companheiro e amigo? Ele estava a barrar-me o caminho para o estatuto que eu queria! Natural, não? Não percebe, doutor?
(Não terá sido só por isso. A questão era infinitamente mais complexa.)
 
 
Kelley teve então a ideia de submeter os seus detidos-pacientes a testes de personalidade. Os de Rorschach entre eles. Os resultados mais originais e criativos vieram de Göring, exactamente. E nessa altura o Dr. Kelley começa a perceber as afinidades que tinha com o seu famigerado paciente Göring. Qualidades pessoais partilhadas, auto-confiança inabalável, perseverança, capacidade de trabalho. Ambição. Egocentrismo de grau elevado. Cada um no seu domínio, eram homens de talento, e sabiam-no, e usavam esse talento.
 
 
Seguiram-se outros exames aos detidos. O tribunal não queria julgar indivíduos que não estivessem na posse plena das suas faculdades mentais.
Reunir peças de um puzzle, associar símbolos e números. Göring atirava-se a esses trabalhos cheio de entusiasmo, e sempre, claro, na convicção própria de que o seu teste seria o melhor. “Como um aluno brilhante e egocêntrico desejoso de realizar o seu número perante o professor”, nota outro dos psis da equipa.
 
 
Göring brilha em testes de memória associativa, e falha ao tentar associar uma sequência de conjuntos de nove algarismos. Dá um murro na mesa. “Dêem-me outra chance, por favor, tenho a certeza de que consigo”. E à segunda tentativa conseguiu, “sem esconder a alegria e o orgulho”.
“Estes testes americanos são muito melhores do que os truques  com que os psicólogos alemães perdiam o seu tempo”, admite Göring. Keitel, o marechal de campo, anuía, os psicólogos militares alemães eram de uma inépcia que tocava o ridículo ao examinarem o pessoal da Wermacht.
 
 
E depois, os testes de QI. Desilusão de Göring. Não era dele o QI mais alto. Era o terceiro, com 138. O primeiro era o ex-banqueiro Hyalmar Schacht, um quase desconhecido com uma carreira excepcional enquanto presidente do Banco da Alemanha nos primeiros tempos, e mais tarde desentendido com Hitler, mandado direitinho para um campo de concentração. Schacht atingira os 143 de QI, e o austríaco Seyss-Inquart era o segundo, com 141.
Comentário do vencedor, Schacht: “um financeiro genial e bom nas aritméticas tem todas as condições para ser um escroque.”
 
                                                                                                            
 
Na ideia de alguns dos elementos da equipa de psis, alguém que tenha sucesso numa dada actividade, incluindo um regime totalitário e assassino, tem seguramente uma inteligência acima da média. E não será essa inteligência acima da média que lhes travará a vontade de cometer atrocidades. A alta craveira intelectual não terá relação com a qualidade moral do indivíduo. E se hoje uma conclusão dessas nos parece óbvia, naquela altura e naquelas circunstâncias, pelos vistos, tomava foros de achado científico.
 
 
O comandante da prisão, o duro coronel americano Burton Andrus, ao tomar conhecimento dos testes comentara: “por aquilo de que me tenho apercebido do intelecto e do carácter destes super-génios não os queria nem como sargentos em regimento meu.”
 
                                                                                                                 
 
A máxima preocupação de Göring não parecia ser tanto a iminência de uma condenação à morte como o paradeiro da mulher e da filha de seis anos, levadas para parte incerta.
 
 
E contava ao Dr. Kelley, alma gémea, passagens da sua vida. A relação com Hitler, uma delas. Nos começos da guerra Hitler nomeara-o seu sucessor. Ficou contente, é verdade, mas…
- Não era o que eu esperava. E por outro lado fiquei furioso porque o Hitler designara esse pateta do Hess como número três do Reich. Meu sucessor, portanto. E disse-o a Hitler. Foi uma fita. E sabe o doutor o que Hitler me respondeu? Disse, “vá lá, Hermann, não sejas nhurro, sê um bocadinho razoável… o Rudolf sempre me foi leal e eu tinha que o recompensar. Dei-lhe este título de meu sucessor número três publicamente, é certo, mas quando tu, Hermann, fores führer do Reich podes muito bem destituir o Rudolf e nomeares tu o teu próprio sucessor.”
 
                                                                                                      
 
Como se juntara ele ao partido nazi?
- Foi logo no fim da grande guerra.
Passara em cuidadosa revista o elenco de grupúsculos de extrema direita que por então pululavam pela Alemanha e deixara-se encantar com o NSDAP pelo apelo que fazia aos antigos combatentes, desanimados com os termos do Tratado de Versailles. E se o NSDAP cresceu e se desenvolveu, e rapidamente se transformou num partido poderoso ao ponto de poder desencadear o putsch de Munique em 1923, podia agradecer a esses antigos combatentes.
Quanto ao anti-semitismo, com todas as ressonâncias emocionais que transportava, muito mais profundas do que a simples revisão de um tratado, sem dúvida que fora o factor decisivo para a adesão em massa ao NSDAP. Göring percebera isso muito cedo
.
 
- Eu tinha razão, pois tinha. Eu tinha razão! Os velhos soldados juraram-me fidelidade e eu tornei-me chefe da nação alemã…
- Chefe da nação alemã? Como…
- Bem, sim, foi demasiado tarde. Assumi essa chefia demasiado tarde, infelizmente. Ou talvez não tão demasiado tarde. Em todo o caso, doutor, cheguei lá. Cheguei onde sempre tinha querido chegar.
Kelley sentia que para Göring o futuro encerraria ainda algumas perspectivas felizes, apesar da certeza que devia ter de que o tribunal aliado dos vencedores o condenaria à pena capital.
- Serei enforcado, acha o doutor? Muito bem. Estou pronto. Mas na certeza porém de que a História da Alemanha reservará um bom lugar para mim. O lugar de um grande homem, não tenha dúvidas.
 
 
Göring poderia não convencer o tribunal quanto à sua inocência dos crimes ignóbeis de que injustamente o acusavam, mas convenceria certamente o povo alemão de que tudo o que fizera o fizera em prol da grandeza do Reich.
 
 
- O doutor duvida que dentro de uns cinquenta anos haverá estátuas de Göring por toda a Alemanha?
- Duvido, sim…
- Pois não duvide, doutor. Pequenas estátuas, seja, mas haverá uma pequena estátua de Göring em cada lar alemão. Pensa que a ideia da morte me perturba? Não, nada. Enquanto chefe militar que conduziu milhares de homens à morte no campo de batalha nunca esqueci a probabilidade forte de ter que enfrentar cara a cara o inimigo…
Não reconhecia a legalidade do Tribunal de Nuremberg, claro que não. Mas conformava-se à realidade. Os Aliados vencedores tinham o direito de impor a sua vontade. Por ele, estava preparado. E Kelley refere estas tiradas de Göring como a primeira vez que o vira tomar verdadeira consciência da impossibilidade de enfrentar sozinho o seu destino de conquistar o mundo.
 
 
- Contra o que muita gente possa pensar, caro doutor Kelley, não vejo como um acto de cobardia a decisão de Hitler de acabar com a vida. Ele era o chefe do Estado alemão! Nem me passaria nunca pela cabeça saber que ele poderia estar a jazer na cela aqui ao lado da minha. Inconcebível! Hitler à espera da decisão de um tribunal de guerra estrangeiro? Inconcebível!
 
 
Mesmo que Hitler nos dias finais do Reich o tenha odiado, Göring guardava Hitler na memória como um símbolo da Alemanha. Preferiria suportar qualquer humilhação a saber que um Hitler vivo estava a ser enxovalhado e infamemente acusado por um tribunal estrangeiro.
- O suicídio é uma escolha lógica, o doutor não acha? Uma escolha, vamos lá, razoável. Extrema mas razoável, penso eu, e logo que a honra e a dignidade nacional sejam postas em causa.
 
 
Uma vez que nos dias de hoje é assunto muito em moda, devo dizer que sobre o Reichmarschall Hermann Göring também impenderam rumores de homossexualidade. Em 1940. Acusações do seu camarada (e igualmente detido em Nuremberg) Julius Streicher, o mais feroz dos anti-semitas do regime. Para o doutor Kelley, a atoarda conteria algum grau de plausibilidade.
Claro que Göring negava em si quaisquer vestígios de tendência homossexual. E passado um tempo de observação, Kelley acredita nele.
Mas emanava de Göring muita energia, inesgotável energia, que o psiquiatra classificava de sexual. E mais os cuidados com a aparência, os cremes para a cara que nem na prisão dispensava, a sombra nos olhos, a espectacularidade do uniforme cinzento-pérola de Marechal do Ar. Sublimaria Göring as pulsões sexuais pela excepcional capacidade de trabalho - ao que constava, 18 horas diárias nos bons tempos do Reich? Talvez. A ambição do poder seria também uma sublimação para as pulsões amorosas. E no entanto, tendências homossexuais à parte, venerava a mulher e tinha tido uma vida conjugal muito feliz.
 
 
E como explicar os esforços para ajudar a família da enfermeira judia que lhe tinha tratado dos ferimentos sofridos durante o putsch de 1923, permitindo à dita enfermeira e respectiva família escapar às perseguições racistas e fugir para Inglaterra?
- Uma decisão absolutamente individual – responde Göring.
Uma decisão que desafiava as estrictas directivas do Estado nazi, mas que não modificava em nada a opinião que ele tinha dos judeus e da influência nefasta deles na sociedade alemã.
 
 
Kelley, o psiquiatra, até admirava a vontade de Göring em assumir a responsabilidade pelas suas acções, ainda que não pusesse de lado a eventualidade de se tratar de um truque dele para chamar as atenções; e porque, percebia-se, chamar sobre ele as atenções fosse lá pelo que fosse era a táctica mais eficaz para lhe restaurar o moral.
Göring nada mudara, a despeito dos rigores prisionais. Continuava fanfarrão, vaidoso e fútil como sempre fora. A conclusão de Kelley era que uma vez que a condenação à morte se apresentava como facto inescapável, Göring desejaria ardentemente ser tomado como o número um do poder nazi e nessa condição vir a ser executado.
Apesar de todas as precauções dos carcereiros, dois dos detidos já se haviam suicidado na prisão. Leonardo Conti, o responsável pelos serviços de saúde do Reich – um réu de menor estatuto em comparação com os Göring, Hess, Von Ribbentrop, Rosenberg, ou Streicher – e Robert Ley, o ministro do Trabalho da Alemanha nazi – e que por acaso até dera bastos sinais de desarranjo mental. Enforcados por processos expeditos e imaginativos, peças de roupa encharcadas e assim rigidificadas.
 
                                                                                                 
 
E cá está um facto que fez brilhar de orgulho os olhos de Göring: acusado no processo de ter pilhado em França o equivalente a 87 milhões de garrafas de champanhe
Göring aproveitava os almoços e jantares em comum com os outros para se arrogar uma posição de (consentida) liderança e rebatendo opiniões dos camaradas que entendia nocivas à causa nazi – e, bem entendido, à causa da inocência deles. 
 
 
 Palpitava-lhe que os seus camaradas se preparavam para admitir culpas. Palpitava-lhe até ainda pior: que Hess, Von Ribbentrop, Keitel, Schirach, Rosenberg, Von Pappen e por aí adiante estariam preparados para renegar publicamente perante o tribunal o regime nazi.
 
                                                                                      
 
E palpitou-lhe isto ao ouvir ao almoço Keitel sugerir como quem não quer a coisa que a haver alguém a levar às costas com toda a responsabilidade do que se passara não deveria ser outro senão o falecido Hitler. Ordens. E ordens são ordens, coisa sagrada para um alemão – e para um militar, claro, pelo menos um daqueles.
Ao ouvir isto, Göring deu um salto na cadeira. “Todos vocês conheciam o Führer, não? E todos sabemos que ele foi o primeiro a dizer: ‘dei as ordens e assumo toda a responsabilidade’. Foi ou não foi? Pois olhem, ainda que assim tenha sido, por mim preferia morrer dez vezes a saber que o nosso Führer, o Führer da Alemanha, se sujeitava a uma humilhação destas”.
Frank irritou-se e defendeu a ideia de Keitel: “outros chefes, e até soberanos, foram julgados pelos tribunais. Hitler? Porque não? Foi ele que nos meteu neste caldinho, e o que nos resta fazer é dizer toda a verdade.”
Dito isto, Frank e os que estavam com Keitel levantaram-se dignamente da mesa e abandonaram o refeitório.
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        Desolados, alguns deles, quando souberam pelos libelos acusatórios que Göring havia posto a saque os territórios conquistados pelas tropas alemãs e acumulado tesouros de toda a ordem, incluindo a pilhagem das mais valiosas obras de arte. Actos criminosos que comprometiam a valer a idoneidade (e a autoridade) do Reichsmarschall.
 
 
Mesmo assim, Göring continuava a exercer grande influência sobre os outros, e garantia a alguns deles que assumiria a parte que lhe tocava nos desaforos do regime; enquanto a outros procurava fazer-lhes ver, olhos nos olhos, toda a indignidade de que se cobririam se renegassem os actos de um governo de que tinham feito parte importante.
Ao psiquiatra Kelley insistia em não reconhecer autoridade moral aos Aliados vencedores para julgarem as decisões do governo nazi. Deitava-se ao comprido na estreita cama do cárcere e discorria:
- Sim, é verdade, rearmámos a Alemanha e violámos o Tratado de Versailles. A minha pena é que não nos tenhamos rearmado o suficiente. Os tratados, doutor… para mim não valem mais do que papel higiénico. Evidentemente que sim, o que eu queria era restaurar a velha grandeza da Alemanha. Se o pudéssemos fazer pacificamente, tanto melhor. Se não… bem, tanto pior. E olhe que os meus planos de guerra contra os ingleses iam bem mais longe do que hoje sou acusado. Eu dirigia a Luftwaffe, não administrava propriamente um pensionato de raparigas.
 
 
Outro dos prisioneiros, Fritsche, disse a Kelley: “se ele (Göring) quer ficar para a posteridade como um herói da nação alemã que fale por ele, mas que não nos meta a nós nas ambições dele.”
 
 
Já com o julgamento a decorrer, veio à conversa com Rosenberg (o teórico nazi da pureza racial) a questão judaica e o paralelo possível de estabelecer sobre o tema entre a Alemanha nazi e os EUA. “Diz o doutor que a América não tem um problema racial?” (Rosenberg pode ter dado uma gargalhada sardónica.) “Então espere-lhe pela pancada. Se vocês não têm um problema com os judeus terão um problema com os negros. Questão de tempo, doutor.” E Streicher corroborava: “vocês vão ter um problema racial, isso vão, não tenha dúvidas, doutor, é uma necessidade biológica”.
(E tiveram mesmo. Mais agudo daí a uns vinte anos. E com ressurgências nos dias que correm.)
 
 
As evidências dos diversos crimes nazis iam sendo reveladas pelo tribunal.
- Vocês não têm maneira de negar as evidências – diz o psiquiatra
Göring animava-se:
- O doutor acredita que se alguém me viesse dizer que se estavam a fazer experiências horrorosas com cobaias humanas… ou que se estava a matar gente aos milhares, e gente que era obrigada a cavar a própria cova, eu teria acreditado? Tudo isso me teria parecido impossível e eu teria tomado essas notícias como mera propaganda do inimigo.
 
 
Mas as provas iam fluindo no tribunal. E provava-se que Göring não ignorara nada das atrocidades praticadas nem dos planos da solução final contra os judeus. E se Holocausto houvera tinha contado com o acordo dele, ou mais, com a acção dele para o levar a efeito.
Em face da influência que Göring parecia exercer sobre os outros acusados, em especial quando estavam juntos, durante as refeições, o comandante da prisão decidiu que ele passasse a almoçar e a jantar isolado numa sala. Não é para admirar que Göring tivesse ficado fulo.
 
 
Entretanto, Douglas Kelley, o psiquiatra-chefe da prisão de Nuremberg, ia sendo promovido. Muito naturalmente, de capitão a major, de major a tenente-coronel. E a comissão dele estava a acabar, e ele pensava no magnífico material que ia colecionando, nos livros que ia escrever, nas conferências que iria proferir. Falava constantemente à imprensa internacional, muito interessada, obviamente, nos processos de Nuremberg. Falava nas amnésias verdadeiras e falsas de Hess, da toxicomania compulsiva de Göring (submetido entretanto a uma desintoxicação), das lesões cerebrais (e o alcoolismo) que estavam na base da loucura indisfarçável do já então “suicidado” Robert Ley, da menoridade intelectual de Julius Streicher, dos pavores de Keitel por esperar que em vez de honrosa e militarmente o fuzilarem o fossem enforcar como um bandalho comum.
 
 
- Sem Hitler, é preciso que se saiba que estes homens não são anormais, nem perversos, nem geniais. Parecem-me mais uma espécie de empresários agressivos, matreiros, ambiciosos e sem escrúpulos cujo negócio era implantar um governo mundial.
Em Março de 1946 é dada a ocasião a Göring de se defender perante o tribunal. Acusado de saber de tudo, campos de concentração, gás, solução final, preparativos de guerra, pilhagens, e de nada ter feito para impedir fosse o que fosse, Göring começou por jogar na retranca. Robert Jackson, um dos procuradores americanos provocava-o. E ele passou à ofensiva, justificando as motivações para as decisões que tomava ou não tomava enquanto figura de proa do regime.
 
 
- Uma única razão motivou os meus actos, e essa foi o amor que ardentemente votava aos meus compatriotas, ao seu destino, à sua liberdade, à sua vida. O povo alemão e o Todo-Poderoso são minhas testemunhas.
O tom oratório era o usado em algum dos meetings decorrido por ali perto, Nuremberg, há não muito tempo.
Doze horas de discurso apaixonado, expressivo, jubilatório, repartidos por dois dias. O balanço era elogioso para com a acção do regime – e dele próprio.
Espantou quem o ouviu. Captou as atenções geralmente dispersas dos seus correligionários, “o efeito de um leão fechado numa jaula” (caracterização de outro procurador americano Thomas Dodd), e subjugou mesmo o seu companheiro do lado esquerdo, Rudolf Hess, as mais das vezes a passar pelas brasas ou a ler um romance policial. Estava publicamente feita a triunfal e paroxística apologia do regime nazi.
 
 
No final do depoimento, Göring foi calorosamente felicitado pelos companheiros – segundo o New Yorker, como o gladiador que regressa de um combate.
 
 
A acusação produz provas. Em 1944, Göring tinha ordenado a execução de cinquenta oficiais britânicos capturados. Göring nega. Nada tivera a ver com tão abominável crime de guerra. Solução final? Nada, nem sabia do que se estava a passar a esse respeito. Genocídio dos judeus? Inocente, não sabia de nada, nem ele nem o próprio Hitler.
Acabava de arruinar para sempre alguma credibilidade que até aí puder angariar.
Um dos psis que sucedeu a Douglas Kelley na supervisão da saúde mental dos detidos deu nota de alguma da táctica de Göring nas relações prisionais. Ao psicólogo que o acompanhava dizia mal do psiquiatra que também o observava. Ao padre católico que o assistia arrasava o pastor luterano que também o visitava. E vice-versa. Aos dois religiosos deitava abaixo os psis. E vice-versa. E mostrando-se atencioso e simpático com cada um deles em separado.
 
 
O juiz Robert Jackson fez um requisitório final comparando os argumentos dos réus com as provas que os acusavam. Declará-los não culpados de ter planeado, executado e conspirado com vista à execução de tão longa lista de crimes e de injustiças face às provas apresentadas seria um contra-senso. E traz à baila Shakespeare. Gloucester em Ricardo III: “se alguém diz destes homens que eles não são culpados, equivale a dizer que nunca houve guerra, que não houve mortes, que não houve crime algum.”
No dia 26 de Junho de 1946, os juízes retiraram-se para deliberar. Mas aos chefes nazis são ainda concedidas alegações finais.
 
 
Göring proclama: “quero uma vez mais afirmar perante este tribunal que em momento algum, nunca!, ordenei a morte de alguém, ou, na plenitude dos meus poderes, tolerei as atrocidades de que me acusam, e das quais nunca fui informado a tempo de as evitar.”
A mulher e a filha foram transferidas de uma prisão em Straubling para mais perto, um pavilhão de caça a 60 quilómetros de Nuremberg e o moral dele melhorou.
E quando o moral dele melhorava era condenado à forca.
Não. Quer comparecer diante de um pelotão de execução e ser fuzilado. Petição rejeitada. Forca. A morte ignominiosa.
 
 
Um psicólogo da equipa adverte as autoridades da prisão quanto à real possibilidade de Göring se suicidar. Difícil. Praticamente impossível. Se o enforcamento é pena para criminosos comuns, Göring, esperto e ardiloso como é, ha-de ter montado um plano para lhe escapar. Difícil. Praticamente impossível.
O dia da execução de Göring foi marcado. Na véspera, Göring pediu ao padre católico para comungar. Mas avisou: cria em Deus, mas não cria na divindade de Jesus Cristo nem conferia à Bíblia categoria de livro sagrado. E o padre negou-lhe a comunhão. Claro.
 
 
Göring senta-se à mesa rudimentar da sua cela e escreve uma nota. Escrita a nota, dobra o papel de deixa-o em cima da mesa. Levanta-se e vai para a parte da cela que ficava invisível pelo postigo que dava para o exterior e por onde os guardas o vigiavam 24 sobre 24 horas. A zona da sanita. Minutos volvidos, regressa à zona visível de fora e deita-se descansadamente, barriga para cima, mãos visíveis sobre o peito como mandavam os regulamentos da prisão.
 
 
Mas naquele momento o ex-poderoso Reischsmarschall já não precisava das mãos para nada. Acabava de trincar uma ampola de cianeto de potássio.
O corpo dele agita-se por uns instantes. O guarda de serviço espreita pelo postigo, Göring está imóvel e a cara dele assume uma coloração azul-esverdeada. O guarda dá o alarme e entra na cela. O comandante da prisão, coronel Andrus, não tarda a aparecer. Göring está morto.
 
 
Com tanta vigilância e constantes rusgas na cela e ao vestuário dos prisioneiros, como fora possível ao Reichsmarschall manter escondida a cápsula de cianeto?
 
 
A nota escrita por Göring momentos antes é dirigida à atenção do coronel americano comandante da prisão.
Sempre mantive a cápsula de cianeto comigo desde o dia em que me capturaram. Tinha até três cápsulas. Uma deixei nas minhas roupas, de modo a que fosse encontrada numa revista. Outra punha-a no cinto logo que me despia, e recuperava-a assim que me tornava a vestir, e mesmo depois das frequentes inspeções nunca foi encontrada. A terceira ainda deve estar nom meu estojo de toilette, enfiada no boião do creme para a pele. Podia ter utilizado uma ainda em Mondorf se o tivesse desejado. Nenhum dos soldados encarregados de me vigiar deve ser castigado. Era quase impossível encontrar a cápsula. Só por acaso. E assim porque fui informado de que o conselho inter-aliado indeferiu a minha petição de enfrentar um pelotão de fuzilamento.
 
 
Para alguns dos juízes do tribunal não restavam dúvidas de que Göring tivera cúmplices. E levantaram-se suspeitas de que um dos militares americanos afectos à guarda do chefe nazi (tenente Jack Tex Weelis) o teria ajudado na ocultação da cápsula. O tenente Weelis teria sido outro dos que caíra rendido ao charme do grande manipulador e que com ele – tal o acontecido com o psiquiatra Douglas Kelley – estabelecera laços de amizade. Teria aceitado fazer-lhe o favor a troco de alguns objectos muito valiosos que Göring levara consigo para a prisão.
 
 
Mas uma investigação de 2005 lançou nova luz sobre os factos. E proporcionou uma confissão. Herbert Lee Stivers, um dos soldados de capacete branco em serviço na sala de audiências do tribunal confessava que a pedido de uma jovem alemã, por então sua namorada, teria passado para a mão de Göring uma caneta contendo no interior a cápsula fatal. Porque o fez? Porque julgava que no interior da caneta ia um medicamento e nem por sombras lhe ocorrera que pudesse ser um veneno.
 
 
Muito longe dali, em S. Francisco da Califórnia, o doutor Kelley, já na vida civil, ficou muito abatido ao saber do suicídio do seu amigo Hermann Göring. Falou à imprensa. Sabedor do quociente intelectual elevado de Göring sempre esperara que ele fizesse boa e honrosa figura até ao fim dos seus dias. “Esperei que ele fizesse uma entrada triunfal e heroica na posteridade quando a plataforma da forca se abrisse e ele gritasse Heil Hitler! Não porque fosse corajoso, mas porque já estaria a ver o seu nome nos livros de História.”
O suicídio de Göring causou muito forte impressão no psiquiatra americano. Um paciente tornado a bem dizer seu amigo íntimo, com quem descobrira uma comunhão de interesses e uma afinidade de carácter.
 
 
Cinco meses de convivência tivera ele com o Reichsmarschall. O suficiente para suscitar admiração pelo exímio manipulador, pela figura extraordinária e carismática. Só nunca lhe teria previsto o gesto final. Mas, por outro lado, também não era de surpreender muito que o Marechal do Ar tivesse feito da morte um último desafio de vida. O gesto dele, afinal, para Kelley, estava em consonância com o ideal e com a imagem mesma de um chefe nazi.
Um acto de cobardia? Não. Não considerava o acto de Göring como prova de cobardia. Como prova de engenho e inteligência, sim. “Para um espírito alemão foi claramente um gesto heroico. Era a quarta grande figura do Reich a suicidar-se, depois de Hitler, Himmler, Goebbels. E se todos esses haviam escapado à desonra da forca, porque não ele?”
 
 
 
E diz mais, Kelley, à imprensa. Diz que Göring foi mais longe do que os outros “suicidados”. Porque aguentou estoicamente um cativeiro, na forte convicção da sua razão, pondo em respeito os carcereiros e impressionando mesmo o douto tribunal. “Um gesto de mistério que sublinhou a impotência dos seus carcereiros americanos e lhe acrescentou à vida um toque de brilhantismo.”
O Dr. Douglas Kelley continuou a trabalhar sobre aquela experiência. Tinha documentos. Tinha amostras – os bombons e os biscoitos que Hess afirmava terem sido envenenados pelos ingleses -, alguns comprimidos da droga favorita de Göring – paracodine. Sabia-se (ou julgava-se) invejado pela comunidade dos psis, qualquer deles capaz de dar um olho para ter em mão tão valioso material de estudo. De vírus nazi é que o doutor não apanhou nada. Tipos parecidos com Göring e seus pares, governados até à demência apenas pelo narcisismo e pela ambição, havia-os seguramente aos milhões, homens de negócios, políticos, gangsters, gente sem o mais leve escrúpulo moral. Ambição desmesurada. Ética atrofiada. Aos milhões.
 
 
E enfim, digo eu, nada que surpreenda comparando com o quotidiano institucional que a imprensa de ontem de hoje e de amanhã nos comunica – só a parte que aos donos das empresas de media interessa comunicar, é claro.
Não era a loucura a explicação do nazismo, segundo um sociólogo que Kelley prezava, Korzybski. Aqueles nazis eram criações de um ambiente social e político específico.
 
 
“Excepção feita ao Dr. Robert Ley, não havia um doente mental naquele grupo de hierarcas nazis”, declara Kelley ao New Yorker. “Não eram homens excepcionais. Também aqui mesmo, na América, há muito daquele tipo”.
E no mesmo registo continuava o Dr. Kelley nas muitas conferências que deu desde 1946. Pessoal daquele havia-o em todos os países do mundo, com as peculiares pulsões de quem almeja o poder, qualquer poder, seja a que custo for.
 
                                                                                                 
 
E acha o doutor que o nazismo poderá algum dia acontecer na nossa América? Evidentemente que sim. Um pequeno grupo de homens poderá sempre apoderar-se do comando de uma nação, EUA incluídos. “E mesmo na América dos nossos dias (1946/47) pouca coisa poderia obstar à efectivação de um poder nazi. Podem-se facilmente descobrir na cultura e na população americanas os traços fascistas, nomeadamente os sentimentos de hostilidade às minorias.”
 
 
Mais tarde, Douglas Kelley tornar-se-ia professor associado da Universidade de Berkeley, continuando com as suas conferências e ocupando-se clinicamente de casos de soldados com patologias pós-traumáticas. “A idade emocional média do povo americano é escandalosamente baixa, entre cinco e sete anos”.
 
 
E o tempo passou, e a vida do Dr. Kelley continuou, mais ou menos normal, rodeado da mulher e dos filhos.
Abreviando muito, direi apenas que ao fim da tarde do primeiro dia do ano de 1958, véspera do seu aniversário, Douglas Kelley está em casa, entra no salão onde ainda está a árvore de Natal, a mulher e os filhos festivamente reunidos em volta da lareira, murmura umas frases incompreensíveis, exibe um pequeno objecto que depois mete na boca e mastiga. Uma cápsula de cianeto de potássio.
E Douglas Kelley, o psiquiatra de Nuremberg, morre envenenado, seguindo o exemplo do seu paciente mais célebre, o exemplo do Reichsmarschall Hermann Göring.
 
 
Investigações feitas, houve quem aventurasse a forte possibilidade de ter sido o próprio Kelley a fornecer a cápsula de cianeto a Göring; assim como também se suspeitou do contrário, que a cápsula de cianeto com que Kelley se suicidou fosse um secreto presente despedida de Göring ao seu médico e amigo. Um presente cheio de subtis significados. Provavelmente.