domingo, 3 de setembro de 2017


                 UMA GINJINHA NO ROSSIO


 
 

É verdade. Foi o que tomei um destes dias, depois do jantar, e lembrei-me de que quando Filipe II chegou para tomar posse do trono português não se dirigiu logo a Lisboa. Entrou por Badajoz e ficou-se ali por Almada. As tropas do duque de Alba tinham-no precedido e tinham vindo a saquear desde a fronteira até estacionarem em Setúbal.
 
 
O rei e senhor de metade do mundo de então foi até Almada e lá se alojou na modesta casa de um certo João Lobo, e com o propósito determinado de estudar a cidade à distância, além de ter de esperar pelo termo de mais uma peste que assolava Lisboa, cidade de pestes, tremores de terra e procissões.
Mais de cem navios de todos os feitios ali estavam e vindos de muitas partes – escreveu Filipe II, ou alguém por ele. Assim percorremos a margem de Lisboa, vendo tudo o que dá para o rio que tem cerca de uma légua de largura, e reconhecendo tudo muito bem.
 
 
A 29 de Junho de 1581, Filipe II entra oficialmente em Lisboa, desembarcando num Terreiro do Paço hiper-engalanado. E quis o rei nesse mesmo dia dar uma curva pela cidade. Atravessou a Rua Nova e deparou-se com um bailarico popularucho de vendedeiras e padeiras em sua honra. Do grupo das dançarinas populares destacou-se uma regateira que se dirigiu ao grande rei, dizendo que o recebiam de bom grado como rei e senhor até que viesse o rei Sebastião, porque em vindo o rei Sebastião, Sua Majestade era bom que deixasse aquele reino e se volvesse com Deus a Castela: Filipe II achou pilhas de piada e mandou pintar a cena.
 
Filipe II gostava das músicas e dos músicos que ouvia em sua homenagem. E quem lhe escrevia os panegíricos proclamava que Lisboa era a maior cidade de Espanha e que em Lisboa havia a maior praça, e que era esta onde estou agora, o Rossio.
Os embaixadores de Veneza que cá vieram cumprimentar Filipe II de Espanha por ser Filipe I de Portugal gostavam da largueza das ruas de Lisboa, mas queixavam-se das constantes subidas e descidas.
Por mais que presentemente me dê vontade de chorar o Portugal dos gestores de sucesso, é em Lisboa que me reconcilio com a minha nacionalidade, ou com o meu patriotismo vacilante. Lisboa no verão – prefiro o mês de Junho, mas ontem já era Agosto. E de modo particular a parte oriental, a Sé, aqueles miradouros que se debruçam sobre Alfama. Que foi onde tudo começou. Mas ainda não foi ontem que lá fui. Fiquei-me por ali, pelo Rossio.
 
 
Uma ginginha tomada no Rossio por um destes fins de tarde estivais pode avivar muita memória histórica.
 
 
Ah, mas tenho que dizer que devo esta memória à leitura recente do livro Biografia de Lisboa, de Magda Pinheiro, editado pela Esfera dos Livros. 
 
 
Sim, concordo, a ginjinha do Rossio (sem elas), como tanta outra coisa nesta nossa vida, já não é o que foi. 1.40€. Desenxabida e aguada roubalheira. Não sei se já se vendia daquele martelado licor de ginja no dia 15 de Maio de 1492, que foi quando se lançou a primeira pedra para a construção do hospital central que o papa autorizara.
Aquilo por ali era a horta do convento de S. Domingos e ali iria nascer o grande Hospital de Todos os Santos, de aspecto e funcionalidades copiadas dos seus semelhantes de Florença e de Siena.
 
 
Andei com o meu ínfimo copinho de plástico em mãos (1,40€ de desenxabida e aguada roubalheira) e olhei para a fachada do Teatro Nacional. Apaguei dos meus olhos as pilastras, os capitéis, o frontão e os eventuais sem-abrigo e convoquei à imaginação um edifício liso, o Palácio dos Estaus, feito para albergar os hóspedes do reino de mais marcado estatuto. E com este palácio e a imponente massa que é o Hospital de Todos os Santos estava feito o Rossio - e eu ainda longe de acabar a ginjinha.
 
 
Em Quinhentos havia ali também um mercado. Nesse tempo, mil pobres deambulavam pela cidade a pedir esmola e seriam as suas cerca de cento e tal crianças anualmente abandonadas que o Hospital de Todos os Santos recolhia.
 
 
 
Pestes, tremores de terra e procissões foi o que mais houve na História de Lisboa. No século XIV foi um ver-se-te-avias, não tiveram conto. Pestes várias que culminam com a grande peste negra que leva 1/3 da população da capital. Peste que chega a matar um rei, e logo um dos mais venturosos - que não em assuntos de saúde - D. Manuel I.
 

 
Pestes e procissões, e umas em consequência das outras. Na morte de D. Manuel a procissão que se seguiu foi um espectáculo, com 20.000 almas a incorporarem-se nela, tudo de negro, a bandeira a arrastar pelo chão, os escudos a quebrarem-se. E mesmo aqui ao pé, no Rossio.
Peste maior foi a de 1569, Junho, a doença que provocava inchaços pelo corpo. Corriam os boatos. O povinho da cidade a fugir para os subúrbios e para as colinas. Ficavam os ricos. Mas o rei estava fora. Por toda a Lisboa eram desmaios e gritos, gente enlouquecida. Não havia que comer. Tiveram que chamar os forçados das galés para ajudar a enterrar os mortos. Os jesuítas não tiveram mãos a medir na assistência religiosa. Mete-se o Natal. A praga abranda.

 
O rei regressa a Lisboa em Maio. Acções de graças. As procissões de expiação começavam. A mais célebre de todas, que ainda hoje, suponho eu, se realiza, é a da Senhora da Saúde, que era na 5ª feira mais próxima do dia 20 de Abril. Sai (ou saía) da ermida, ali ao Martim Moniz, corria a Mouraria, ia até à Sé.

 
Lisboa das seculares procissões, como diz a canção, e é verdade. E a da Senhora da Saúde deve ter tido coreografia parecida com aqueloutra de 1552, já não me lembro (se é que alguma vez o soube) a que propósito e coloridamente descrita pelos cronistas. Era inicitiva da Misericórdia e começava ao anoitecer. Ia até S. Francisco, e depois vinha à Trindade, descia o Carmo, ia até ali a S. Domingos, calcorreava encosta acima até à Sé, e voltava à Misericórdia.
O cortejo de velas, archotes e candeias na noite escura devia ser medonho e fantasmagórico, com os penitentes a disciplinarem-se à vergastada, com outros a carregar bacias de vinho, bilhas de água fresca e fatias de marmelada para não deixar desfalecer os penitentes.
À chegada à Misericórdia tinham os físicos à espera para lhes espremer as chagas, lavá-las com vinho e ligá-las. 
 
 
No século XVI teve início em Lisboa aquilo a que não sei se poderei chamar de registo civil. Registo dos lisboetas que nasciam e eram baptizados e dos que faleciam. O Concílio de Trento havia dado ordens terminantes nesse sentido, sim, mas pela razão também das crescentes desavenças rácicas e religiosas. Pelo registo ninguém ocultava a sua origem étnica, a religião, os antepassados. E porque entre os séculos XV e XVI vivia-se em Lisboa um estado larvar de guerra racial.
Feições asiáticas, levantinas, negras, foi o que aqui há dias vi passar à minha frente, sentado nos degraus do Teatro D. Maria na companhia dos tais eventuais sem-abrigo que beberricavam cerveja velha e me pediam cigarros. E a minha memória livresca emprestou roupas de outros tempos e ritmos de outros tempos à andadura dos indianos, chineses, marroquinos e negros que vejo passar – que passavam por mim no Rossio, é verdade – e lembro-me de que foram estes os que ficaram cá por Lisboa depois da conquista cristã.
Depois dessa conquista (ou reconquista) cristã, os mouros, ou as elites deles, conservaram algumas autonomias. Algumas dessas elites reclamaram-se descendentes directos do Profeta e reivindicaram da corte certas benesses, que aliás lhes foram concedidas. Tinham o seu corpo de leis e os seus notários próprios. Eram-lhes até confiadas missões diplomáticas. E muito por eles, e por suas manufacturas em sedas e tapeçarias, a corte, nos seus luxos, adoptou certo gosto orientalizante.
 
 
Os judeus, apesar de mal vistos, também se iam governando menos mal com os metais preciosos de África, com os açúcares da Madeira, com os seus tratos com a corte. Os menos favorecidos pela fortuna estavam obrigados a rudes medidas de identificação e de demarcação de residência e de propriedade. Os de mais posses, obviamente, escapavam às regras. Mas a vida deles não seria facilitada para sempre.
 
 
Em 1482 é saqueada a Grande Judiaria. Estavam a chegar judeus de Espanha. O papa Sixto fora na conversa dos reis católicos e dera força à Inquisição. 20.000 chegam de Espanha e têm oito meses para desaparecer. Mas não desaparecem assim com duas cantigas e é-lhes decretada a expulsão.
Mas como expulsar os judeus de modo compulsivo se não há nas docas navios que cheguem para levar tanta gente? E então muitos deles vêm dar com os ossos ali, no Palácio dos Estaus, que será futuro palácio da Inquisição, ali mesmo, no Rossio, onde eu  andava às voltas com a minha ginjinha. E ali eram convertidos às três pancadas à fé cristã. E baptizados. E ficavam novos. Cristãos novos.
 
 
Mas ainda por aqui por este Rossio das ginjinhas, no fatídico dia 19 de Abril de 1506, o pagode levantou-se contra judeus e crstãos novos e foi o massacre.
 
 
Damião de Góis culpou os frades dominicanos de terem açulado os populares e chamado os marujos portugueses e holandeses que andavam pelas docas para ajudar à matança.
Os frades fizeram um furo na cruz da igreja (a de S. Domingos, presumo) e por detrás do furo puseram uma candeia acesa, de forma que a chama lucilava como um sinal divino. Imediatamente foram arranjadas interpretações teológicas para consumo dos fiéis. Aquele sinal era Deus a manifestar a sua vontade de que os judeus fossem imolados sacrificialmente pelo fogo.
 
 
Lisboa estava a ser vítima de uma seca prolongada e um cristão novo presente na missa tem a infeliz ideia de adiantar um interpretação diferente do sinal, recusando o milagre da chama na cruz, denunciando a candeia por detrás, dizendo ah, quisesse o céu que fosse um milagre de água em vez de fogo… com esta seca é de água que precisamos. Foi ele o primeiro a quinar. Mas ainda era o primeiro dia. Ali mesmo. No Rossio.
 
 
“Il di spuntò, di del terror”, dizem os frades inquisidores da ópera D.Carlos, de Verdi. E realmente, ali, no Rossio, o dia despontava mesmo para mil cristãos darem caça a judeus e cristãos novos. Judeus e cristãos novos que tinham deixado de andar pela rua, a ver se escapavam à fúria da populaça. Não escaparam. Os cristãos amotinados iam buscá-los a casa, arrastavam-nos pelas ruas, velhos, mulheres e crianças de colo, e, ou matavam-nos antes de os deitarem ao fogo, ou atiravam-nos para a fogueira ainda vivos.  
 
 
E ontem eu olhei para a Igreja de S. Domingos e para aquele teatro nacional carregados de História trágica e lembrei-me dos violentos incêndios, em 1959 e 1964, e veio-me à ideia a hipótese de vingança do que aqui se passou naqueles dias de Abril de 1506. 2.000 mortos com primores de crueldade. Vingança desses dias e doutros, claro, porque aconteceram aqui os primeiros autos-de-fé.
 

                                                                 


 
Foram esses autos-de-fé do Rossio em 1540. A corte assistiu. Mas subsequentemente achou-se preferível como cenário para tais cerimónias o Terreiro do Paço, devido a uma monumentalidade que aqui o Rossio não tinha, e porque os condenados e os convidados deveriam sentir-se temerosos ante o espectáculo dos poderes mancomunados, o de Deus e o do rei – o que então ia dar no mesmo. Ou, dito de outra maneira: os poderes da Igreja e os do Estado – o que também ia dar no mesmo.
 

E o interessante é que, com toda a repressão, com toda a violência instituída pelo Santo Ofício sobre hereges, judeus, mouros, bruxas, sodomitas e loucos, houve notícia de portugueses baptizados que renegaram a fé de Roma e se converteram ao islamismo.
 
 
Eram tempos de grande violência, sim, uma violência que nos custará a imaginar. Naqueles tempos festejavam-se os actos de barbárie de modo superlativamente entusiástico. E mais ainda se se tratasse de barbárie religiosa, como foi o caso da festança que por aqui houve quando do massacre dos huguenotes em Paris. Até houve luminárias em intenção dessa tristemente célebre noite de S. Bartolomeu.
 
 
Durante os preliminares da excursão a Alcácer Kibir Lisboa era uma cidade aberta, por onde circulavam mouros, tudescos, castelhanos, genoveses, romanos. Tudo quanto era estrangeiro desembocava ali, naquela praça do Rossio e ali se armavam as maiores zaragatas multinacionais e multirraciais.
 
 
Os problemas de trânsito cá por Lisboa começaram historicamente cedo. Foi quando pegou a moda dos coches, ainda no tempo do rei Sebastião. Os populares odiavam os coches, mas o coche dava estatuto e todo o nobre ou burguês endinheirado passou a andar de coche, e foi preciso regular a circulação. Além do mais os coches arruinavam o pavimento, que era de tijolo. De maneira que houve que regulamentar o tipo de rodas.

D. Sebastião era de saúde fraca. Não lhe aconselhavam como morada o Palácio da Ribeira. Por causa da muita humidade. E por isso, em 1566, ele se mudou para o Palácio dos Estaus. E foi ali, em S. Domingos, que correram as cerimónias da entronização.
Por falar em D. Sebastião, toda a Lisboa andava por aqui inquieta com os correios que iam chegando de Marrocos. E a 12 de Agosto de 1570 houve a certeza do que ocorrera lá pelos areais inóspitos no dia 4 desse mês, o desbarato das tropas lusas e o desaparecimento do rei. Ninguém aqui pelo Rossio queria acreditar na notícia.
 
 
E estava-se ainda de luto carregado pelo rei morto em terras berberes quando aqui pelo Rossio começa a correr o inquietante boato. El-rei Sebastião teria sido visto em Itália na companhia de outros vinte portugueses.
 
 
Em 1670, a Câmara de Lisboa estava pelos cabelos de dívidas, estava em incumprimento e deixara de pagar aos credores.
O lixo, os dejectos, os despejos para a rua foram uma constante em Lisboa pelos séculos dos séculos. Havia falta de gente classificada de “inferioridade” para tratar do problema da higiene pública. As escravas calhandreiras é que andavam já nos princípios do século XVIII com vasilhas a “alimpar” as imundícies deitadas à rua, e esgravatando nos lixos à cata de anéis ou moedas de ouro e prata perdidas.   
    
                  
No tempo de D. João V, os viajantes estrangeiros escrevem: a cidade não tem iluminação durante a noite e é frequente perder-se um sujeito e correr o risco de ser enxovalhado pelas imundícies que é uso despejarem-se para as ruas, pois as casas não têm latrinas.
Dizem alguns visitantes que Lisboa sofria uma praga de cães. Os cães, o lixo, as matanças do porco em plena rua. Os estrangeiros queixavam-se do mau cheiro de Lisboa
O abalo sísmico e o incêndio que se seguiu aqui no Hospital de Todos os Santos, cinco anos antes do grande terramoto, e no exacto dia da morte de D. João V, pode ter sido um primeiro aviso do destino quanto às desgraças que estavam para vir. O hospital ficou destruído, em especial as enfermarias que deitavam para a Rua da Betesga e cinco anos depois, no dia 31 de Outubro de 1755, a maré atrasou-se duas horas.
 
 
A 1 de Novembro de 1755 pensou-se que era chegado o dia do Juízo Final e os padres e os frades não tiveram mãos a medir por entre os ajuntamentos de povo a esgatanhar-se à porfia para se confessar.
A Lisboa que eu estava a ver dali era nesse dia uma fogueira pegada, há quem diga que por causa de velas e lamparinas deixadas a arder nas igrejas com a precipitação da fuga. A Lisboa renascentista, maneirista e barroca apagava-se nesses dias do mapa. Vadios, desertores e ladrões passaram a acoitar-se nas ruínas dos muitos prédios destruídos.
 
 
Na reconstrução da cidade aqui o Rossio dignificou-se. Foi-lhe regularizada a forma sem alteração das dimensões. Deixou-se estar ali ao meio a fonte com a estátua de Neptuno. Fizeram aquele edifício ao fundo, aquele frontão, onde é a Tendinha, abriram o arco, que é o Arco do Bandeira. O hospital foi reconstruído e só vem a ser substituído pelo de S. José depois da expulsão dos jesuítas. O palácio da Inquisição ali ficou.
 
 
Os enjeitados abandonados nos adros das igrejas ou à porta de particulares ricos eram às centenas ainda no século XVIII. A 5 de Outubro de 1737, ali para cima para a Senhora do Monte, foi achada a Rita. O provedor da Misericórdia foi chamado e recolheu a criancinha, para evitar que, na palavra dos cronistas, a não comessem os cães.
Os visitantes dos séculos passados estranhavam que o lisboeta desse esmola a mendigos válidos para o trabalho. E daí concluíam os visitantes da estranja (em tom de liberalismo económico) que a grande quantidade de pobres em Lisboa era resultado do espírito caritativo dos portugueses – e dos ricos, sublinhe-se, que em certos dias distribuíam comida a centenas de esfarrapados, mulheres e crianças, e os viam da janela devorar tigelas de caldo e pedaços de toucinho como se animais esfaimados eles fossem.
À mendicidade infantil valeu Pina Manique com a criação da Casa Pia do Castelo. Mal sabia ele…
Acabei então a minha ginjinha e não me apeteceu outra.
Mas, para terminar, ainda o lixo e a mendicidade. Não era por falta de legislação camarária que nos séculos de antanho não se deitavam mãos ao problema. Havia legislação em barda. Mas dos regulamentos à capacidade de os executar no terreno vai sempre, em Portugal, grande distância – como ainda hoje bem sabemos. Deve ser factor constitutivo do espírito português.
 


 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 19 de agosto de 2017


                      A JIHAD PORTUGUESA

 
         Um violentíssimo atentado jihadista em Barcelona fez tantos mortos como a simples queda de uma árvore no Funchal.
 
 
         O terrorismo islâmico ainda não chegou a Portugal? Pois não. E esperemos que nunca chegue. Para desgraças é que já temos que chegue. Temos por cá os nossos jihadistas.
         No Portugal interior um tipo vai à noite ao café. Fica à conversa com os amigos. Olha para o relógio. São horas de ir para a cama, até amanhã, malta. No trajecto para casa passa por algumas zonas de mato e arvoredo e de caminho vai-se entretendo a pegar fogo ao mato que há na berma da estrada. Chega a casa e vai-se deitar com a mulher sossegado da vida.
 
 
         Pois parece que isto aconteceu mesmo lá para uma vila do interior. Assim, ou parecido, não deve ter acontecido só uma vez. É a jihad portuguesa em acção.
         A jihad portuguesa não se contenta com o processo em marcha de desertificação do nosso interior pela fuga desabalada dos naturais para o litoral à procura de melhor vida. A jihad portuguesa quer levar a desertificação até ao limite. Se desaparecem as pessoas, que desapareçam também as florestas, as casas, os animais, as culturas. A jihad portuguesa sonha com um país deserto e negro, miserável e carbonizado.
 
 
         Não falando já, à colação da nossa jihad, de um jihadismo nacional marcado pelo sectarismo dos chefes político-partidários, que ano após ano, em pleno flagelo dos incêndios florestais, declamam na televisão o que é preciso fazer para acabar com o flagelo, com a engraçada particularidade de nada fazerem do que dizem ano após ano ser preciso fazer. Ano após ano. E de há muitos, muitos anos para cá.
 
 
         Outra jihad é a dos dirigentes e comunicadores do futebol a incendiar as almas clubistas até ao desvario das claques legais e ilegais que disparam tochas ardentes a esmo em ajuntamentos de milhares de pessoas. Impunemente, claro está.
         O terrorismo islâmico ainda não chegou a Portugal? Pois não. Provavelmente esses terroristas saberão que temos cá, activo e militante, o fogo do nosso próprio jihadismo, o da estupidez, o da impunidade, o de alguma obscura e colectiva maleita mental. Chega.
 
 

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017


      PODEM (DEVEM) OS POLÍTICOS SER BOAS PESSOAS?

 

 
Veio-me isto à cabeça já há tempos, quando foi notícia a publicação do livro de memórias de Cavaco Silva…
        Político boa pessoa?

Boa pessoa antes de ser político, um sacaninha durante o tempo da sua actividade como político? Possivelmente. Sacaninha porque a isso poderá ser constrangido, se não quiser ser empalmado pelos adversários e inimigos – para não falar dos próprios correligionários. E regressando à qualidade de boa pessoa logo que abandone as funções públicas.
        Que tal? Muito esquemático, talvez.
Por acaso, já no pós-guerra francês, Albert Camus, escrevia no Combat: nós queremos chefes que não nos deem vontade de rir.
Ah, ah, ah… apetece-me dizer.

Chefes.
Houve quem dissesse (há muito tempo) que um bom governo só resultava na homogeneidade que radicava no poder de um só.
Poder pessoal e personalização do poder. Chefes, ui!
Há um ponto a esclarecer: personalização do poder e poder pessoal; não são a mesma coisa, apesar da proximidade prática e concreta dos dois conceitos.
Poder pessoal é a realidade institucional; é a pessoa que controla todos os poderes, que domina a mecânica do Estado – eis aqui as velhas tiranias, as obsidiantes ditaduras, as monarquias e os antigos regimes.
Personalização é conceito que se afasta dos domínios institucionais e engrena na psicologia social, uma identificação com o grupo do poder, grupo esse que na personagem detentora do poder se reconhece.
Haverá poder pessoal sem personalização do poder?
Parece que sim. Tanto quanto parece aos especialistas pode haver (Kennedy, Roosevelt, Churchill). Mas o mais corrente, claro, é a existência cumulativa das duas situações.

A fazer fé nos especialistas – e pode ser que isto ande tudo ligado -, a forma que as mentes paranoides usam de mais frequência para incrementar a auto-estima é através do exercício do poder. A demonstração da razão que lhes assiste empresta-lhes a sensação de triunfo, a sensação apaziguadora de rectidão pessoal e autoridade moral, a segurança. E aqui o pendor litigante dos indivíduos paranoides, a necessidade de desafiar e derrotar.
Que Cavaco era um político geralmente antipático, empedernido, inacessível, duro, rigoroso, rígido, enfim, já se sabia. Ou era o que parecia. A cara talhada a canivete não o ajudava, mas cada qual é como é, e não nos podemos admirar que cada um leve aquilo que é e o seu estilo de ser para a actvidade que desenvolve.
Mas ao abandonar os altos cargos, com setenta e bastantes anos no corpo, e ao escrever memórias, não era nada de mais que aproveitasse para trazer ao de cima, pela escrita, alguma bonomia, algumas das amenidades pessoais que tivesse deixado entre parêntesis enquanto homem público em altos cargos.
Mas não.
Quando alçapremado ao poder por empolgante maioria absoluta, Cavaco Silva assumiu-se como “o chefe”. A mim pareceu-me sempre mais um baço chefe de escritório do que um vibrante caudilho de governo ou um venerável chefe de Estado. E foi como chefe que os súbditos o encararam e aceitaram, eventualmente por pensarem que em tanta e tão aparente democracia o que fazia mais falta ao país era mesmo um chefe. Há muito homem que não resiste a ser tratado como chefe, nem que seja da chafarica mais infecta.
Um pouco de História…
Para ter mão forte sobre as massas populares – e quem a tem sobre as massas populares também a tem sobre as outras massas – já dizia o afamado Dr. Goebbels, é preciso um chefe. Mas um chefe que saiba impor a sua personalidade. E assim porque as massas populares seriam aparentadas às mulheres, preferiam um homem forte a um homem fraco – conheci algumas que preferiam exactamente o contrário, mas isso seria outra conversa…

Goebbels propugnava mais: que as massas não tinham necessidade nenhuma de ler.
Bem sei, era naquele tempo e naquela circunstância histórica. Todavia, hoje por hoje, na iliteracia campeante promovida pelo novo liberalismo que deixa os livreiros de cabelos em pé, o tempo pode estar a voltar para trás, como cantou essoutro filósofo chamado António Mourão.
As massas não teriam então necessidade nenhuma de ler porque gostavam de se rever numa presença viva.
“As massas de uma nação rendem-se à palavra falada” – repare-se: não escrita. E o chefe gerará paixão nos seus apaniguados na medida em que ele for um apaixonado. Porque sem paixão não há chefia. E a chefia é a concepção fanática da vida. “Todos os grandes movimentos se devem aos grandes oradores e não aos grandes escritores”.
(E Cavaco até escusou de ser um orador, e menos ainda um apaixonado…)
Na política, todos sabemos isso de sobra, há o dizer e há o fazer. E tempo houve em que o princípio da actividade política era o verbo e o político modelo era o ideólogo retórico. O dizer era capital, o fazer logo se veria. A forma prevalecia sobre o fundo. A palavra era o instrumento da acção política por excelência.
Não sei, não tenho competência nem estudos para saber até que ponto as coisas mudaram assim tanto e tão radical e profundamente – de resto, para quem alimenta de televisão o quotidiano disponível as coisas parecem não ter mudado quase nada…
Mas os técnicos dizem que sim, que tudo mudou. Que o cerne da acção política já não está no verbo, que está na ciência (política) e na acção. Dizem que a política é saber fazer algo mais do que discursos. Fazer algo mais no Direito Constitucional, na Economia, nas Finanças.
Fernandez de la Mora escreveu acerca das alterações da sensibilidade popular. O pessoal já não ouve tanto quanto vê. Realizações concretas é o que o público eleitor quer ver na acção política – para além de continuar a ouvir a música dos discursos, de tentar compreender a comédia dos pontos programáticos que os partidos propalam, de conformar-se com a hipocrisia dos princípios.
O político no poder afirmar-se-á pelo que é estatisticamente mensurável. E do puro político retórico, mui paulatinamente se passou ao perito especialista. Não tem ideologia. É bacteriologicamente puro nesse particular. Não tem cultura. Tem ciência. É um profissional. Boa pessoa? Escusa de o ser…
Cavaco marcou em Portugal uma época de viragem. Justamente a dos tribunos loquazes da tradição primo-republicana – e que ainda remanesceram um tanto no imediato pòs-25 de Abril – para um tempo de tecnocratas, de peritos, de operadores de estatísticas mensuráveis, de economicismo implacável e de um específico fanatismo que tudo reduz a números, tentando fazer da política uma ciência exacta.
Como digo, Cavaco era um governante antipático mas o pagode não lhe faltou com os votos, tomando-o por um político sério e finalmente não retórico.
Daí a ser boa pessoa…
É mais do que sabido que a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial pôs um fim ao prestígio dos autoritarismos e abriu caminho ao sistema demo-burocrático como o conhecemos.
Foi música celestial para a fácil tomada do poder político pelo poder económico-financeiro, e de modo a que os governos e demais instituições democráticas descambassem para a condição de instrumento desse poder económico-financeiro – como todos os dias temos disso a evidência.
É daqui que decorre a emergência da mediocridade que se segue ao poder dos últimos líderes carismáticos, De Gaulle ou Adenauer, por exemplo, os que tinham prestígio político bastante para se imporem aos ditames da finança. Mas esses prestigiados carismáticos foram desaparecendo e o poder económico-financeiro ficou como quis, dono e senhor dos destinos (os nacionais e os particulares) colocando às suas ordens políticos intelectualmente medíocres, alcandorando-os ao poder pela força das máquinas partidárias de propaganda. Máquinas de propaganda, é claro, financiadas pelo poder económico-financeiro. Nem podia ser de outra forma.
        Pensando no livro (por mim não lido, aliás) de memórias de Cavaco Silva, inevitavelmente me ocorreram as figuras dos dois últimos presidentes da nossa república, os que escreveram memórias, os que ajustaram contas literárias (se assim se puderem chamar) com os primeiros-ministros que lhes tocaram em sorte. Santana Lopes e José Sócrates.
        Sim, se fossem mesmo boas pessoas não o teriam feito – mas também, calhando, se fossem assim tão boas pessoas teriam sido canonizados e não teriam ocasião de se conseguirem guindar a tão alta magistratura.
        E se essa vulgaridade do ajuste de contas era de esperar da vulgaridade mesma, intrínseca, do provinciano sobre o modernaço tecnocrata, que era o frio Cavaco, digo, não a esperaria eu da inutilidade retórica e dos fumos humanistas incomparavelmente mais cultos e refinados de Sampaio.
        Pormenores, dir-me-ão. Aceito. Fraquezas da condição humana. Aceito. Porém, pormenores e fraquezas que marcam as duas memórias, como se para os comentadores nada valesse a pena esgravatar do conteúdo – talvez não valesse mesmo, não sei, não as li e não gostei, como diria o crítico literário brasileiro.
Isto da política é o diabo...
       Quem vai para a política? E porquê?
        Houve quem tivesse ido para salvar o mundo. Em tempos mais puros, diria, quando a ética e a moral ainda tinham algumas possibilidades. Odiernamente pode ser que alguns entrem na política para salvar o mundo, muito bem, mas, perante a enormidade da empresa, acabarão por se salvar a si mesmos, o seu próprio mundo, porque não…
        Há os que vão para política já destinados a voar alto. E há os que querem governar a vidinha e já vão sentenciados à medíocre obscuridade, os proto-caciques autárquicos, por exemplo, ou os vagos deputados da última bancada.
        Professor de Finanças, ministro de Sá Carneiro, Cavaco estava destinado ao voo alto de parecer, pelos modos e pela comunicação pessoal, o Salazar que se podia arranjar em democracia.
        Advogado, com a baixa evidência política enquanto activista nas crises académicas dos anos 60, seguida de acção no civilizado micro-esquerdismo do MES dos anos 70, não seria imediatamente previsível para o apagado Sampaio um destino glorioso nos mais altos cargos – presidente da câmara da capital já não era nada mau.
        Questão de conjunturas. Possivelmente. De tempos históricos mais ou menos propícios. Questão de temperamento ou de qualidade de ambição. Também.
        Ainda assim, gosto de distinguir os dois, Sampaio e Cavaco (por ordem de entrada em cena presidencial). Distinguir as diferenças entre o homem visceralmente de esquerda que era Sampaio, e o homem visceralmente de coisa nenhuma para lá da vaidade sorna e da ambição pessoal que era Cavaco.
        Boas pessoas?
     Bem, não sei se por afinidades mais ideológicas, acho que consigo deduzir essa qualidade de boa pessoa mais presente, infinitamente mais, em Sampaio do que em Cavaco. Acho. Daí à realidade é que não sei. Não conheci nem um nem outro, o que não me autoriza juízos dessa qualidade. Ambos me eram antipáticos por razões substancialmente diferentes que não interessa para agora discriminar.
        Porque, lá está o óbvio, uma coisa é ser-se boa pessoa no concerto dos amigos e da família, enquanto cidadão comum, e outra coisa é sê-lo enquanto dirigente político.
        Então oiça lá, seu bloguista de água doce, mas o político deixa de ser uma pessoa lá por ser político? Pois é. Deixa. Passa a ser um símbolo. Deixa, ou pode deixar, conforme as alturas a que ascenda. Se deve deixar é outra questão. Mas que pode deixar pode, e geralmente deixa.
        Na mais baixa acepção passa a ser símbolo do seu partido, um homem de partido, e por isso mesmo detentor de verdades oscilantes e alinhadas quando ditas da boca para fora, e de decisões que comprometem primeiramente os seus seguidores.
        Na mais alta das acepções passará a ser o homem de Estado, de falas e decisões que antes de mais dependem não tanto dele mas da razão de Estado. É muita carga para um homem comum e boa pessoa.
        Haverá portanto os que se adaptam e esquecem a antiga qualidade de boa pessoa e serão boas pessoas consoante a circunstância. Haverá os que conseguem trazer essa qualidade de boa pessoa para a vida pública e para a decisão nacional. Se tal for compatível. Do que se duvida.
Haverá os que se possam sentir nas suas sete quintas, sem rebates de consciência, e porque, finalmente, se alçaram a uma condição supra-humana em que ser boa pessoa é o que menos importa para o bom cumprimento da função. Mas também temos os que cumprem menos bem a função exactamente porque deixaram à porta do palácio em que trabalham o condicionamento ético-moral de serem bons seres humanos.
        Mas o que é, em suma, isso de ser boa pessoa?
        Pode inclui várias qualidades. Esquecer os agravos. Respeitar os segredos do Estado que serviram. Não serem vulgares maldizentes. Não atacarem o adversário quando ele está na mó de baixo. E assim por diante.
        E assim por diante…