quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

                           O DUO DA MORTE

O estranho caso da carta do carro eléctrico.
Conta Jorge Morais no seu livro Regicídio, a Contagem Decrescente uma peripécia algo incrível.
 

 
Que o conde de Paçô Vieira tomou um eléctrico e que ao chegar à Rua das Pedras Negras se sentou no lugar deixado vago por um passageiro que saiu.
O passageiro saiu mas deixou esquecido sobre o banco um jornal. Jornal esse em que Paçô Vieira pegou e de dentro do qual caiu uma carta. Carta endereçada a Mr. Buiça, Colégio Moderno, Rua das Pedras Negras. O conde abre a carta. Vem de Vila Viçosa. É assinada por Pad’Zé – o Dr. Alberto Costa, conhecido boémio reviralhista, de quem falei no post passado.
 
 
E diz assim a carta: Querido amigo, Simão vai a Lisboa no dia 20 com o podengo mais novo. Se foi combinado o que sabes, mata-o tu que és bom atirador. Que Lúcifer te proteja. Se não, espera pela entrada triunfal no dia 2.
(É preciso dizer que D. Carlos era chamado nos meios conspirativos o Caçador Simão.)
 
 
Alfredo Luis Costa parece ter sido o chefe daquele grupo de comandos regicidas, o grupo dos 18.
 
 
Alfredo Costa tinha escritório de representações na Rua dos Douradores. E tinha só 23 anos. Aquilino conhecia-o de muito perto, descreveu-o no livro póstumo de memórias Um Escritor Confessa-se e pareceu-me apropriado copiá-lo.
Alto, desengonçado de corpo, fisionomia séria, quase triste, grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez que parecia de sonâmbulo e era de atenção, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Homem de uma só peça, crente até ao iluminismo interior, resoluto, imediato, pronto a reagir, mesmo ofegante no que fazia.
 
 
Alfredo Costa não tinha estudos especiais. Na versão de Aquilino educou-se como pôde. O republicanismo de que fazia alarde, Aquilino julgava-o um caso de consciência, soberano e despótico. E diz que não lhe faltava nada para carrasco ou herói. Ai de quem lhe manifestasse uma perplexidade. Ai de quem lhe faltasse à palavra. Diz Aquilino que uma ruptura no dogmatismo a que submetia tudo sofria a condenação da sua boca e o  correctivo dos seus punhos. E Aquilino conclui que na lógica moral da pessoa de Alfredo Costa compreendia-se a vocação para conceber o acto terrível. O Buiça era o braço direito do Costa. Tinha 32 anos. Aquilino escreve largamente sobre ele também.
Tão despótico era nele o instinto da sociabilidade que não sabia enxotar da sua beira indivíduos de má nota e malandrins garantidos.
De corpo era de estatura meã, rosto fino, tez branca, a que dava realce a barba preta com tons de fogo. A testa era espaçosa com arcadas supraciliares marcadas, sem demais. As linhas fisionómicas duma delicadeza que, fora das mulheres, desagrada. Só os olhos, muito móveis e azuis, mas sem crueza, traíam nele o ânimo expedito e a índole que, além de resoluta, era exaltada.
 
 
Era extremoso pai de família, o Buiça. No dizer de Aquilino galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais de uma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral. Viúvo. Aquilino não se esquece de informar de que o homem mantinha uma relação com uma menina de Lisboa. Dois filhos, Elvira e Manuel, sendo deste último o próprio Aquilino padrinho de baptismo. 
E no dizer de Rocha Martins o Buiça era homem de fácil, e também fugaz, irascibilidade. Fácil, fugaz, mas capaz de tudo enquanto ela lhe durasse. Lá na terra chegara uma vez a correr de pistola na mão atrás de um primo para o matar. Quando era sargento de Cavalaria arriava forte e feio nos recrutas madraços que se baldavam aos exercícios.
 
 
Havia nos seus movimentos, quando calmo, uma coquetterie sem pedantismo, natural, confiando só em si, embebido do tipo do Suvarine do romance Germinal (de Zola), revolucionário descrente dos outros, sentindo-se o único homem de acção. Tinha o seu quê de desordeiro, era admirador dos russos nihilistas, temperado no soalheiro do café lisboeta.
Segundo alguns, o atentado ao rei teria sido organizado nos seus últimos trâmites pouco antes de 3 da madrugada do próprio dia 1 de Fevereiro numa quinta ali aos Olivais, segundo uns Quinta do Ché, segundo outros Quinta do Chéché; e sequentemente a uma reunião conspirativa havida a 30 de Janeiro numa casa de Xabregas.
 
 
Do derradeiro encontro conspirativo na dita Quinta do Ché, dá nota um dos participantes, Fabrício de Lemos. Foi numa adega subterrânea.
Transcrevo directamente, conforme o li no livro de Jorge Morais, que por seu turno cita o texto de Fabrício de Lemos…
Uma mesa de pinho tosca e suja e alguns barris e mochos cosntituiam todo o mobiliário. Espalhadas, algumas velas enterradas em gargalos de garrafas vazias projectavam uma luz vacilante sobre as escuras paredes tristes e lacrimosas da humidade.
 
 
Impressiona-me este romantismo tardio e heróico nas prosas revolucionárias. Parece um atentado concebido e consumado por encenadores de ópera. Ainda por cima, para reforçar os dramatismos, diz Fabrício de Lemos textualmente que chovia a potes, e que os camaradas entraram pela porta estreita que dava para a azinhaga.
Eramos 15 portugueses e 3 estrangeiros: um italiano, um francês e um catalão. 18 homens ao todo. Decididos a levar a cabo o mais justo dos intentos, embora perigoso e difícil. O Buiça é o primeiro a pedir a palavra.
Buiça concordava que tirar a vida nem que fosse ao mais celerado dos homens, seria, pelos mandamentos do seu próprio ideal, desumano e injusto.
Embora a nossa causa seja toda bondade, justiça e perdão, não hesito neste momento único na História do nosso desgraçado país, em vos pedir a morte de todos os descendentes de uma dinastia de hipócritas e de cobardes que sobre nós acarretaram todos os males e todas as vergonhas. Aqueles que não sejam da minha opinião que se  levantem.
Refere quem ouviu o Buiça neste lance que a voz dele era profunda e convicta, que a fisionomia dele era a de um apóstolo, e (sic) frouxamente iluminado pela chama indecisa das velas.
 
 
E ninguém se levantou contra a proposta do Buiça. Os braganças estavam a partir daquele momento, condenados. A seguir falou o Costa.
Amanhã morrerão todos, embora à custa das nossas vidas. Sentimo-nos felizes por poder dá-las pela nossa causa. E ouviu-se um apoiado retumbante. A morte dos braganças estava votada à unanimidade.
 
 
Plano de acção: um primeiro grupo de seis homens a esperar pelo rei no Terreiro do Paço. O Buiça faz uma exigência: que esse grupo seja formado só por conjurados portugueses. Porquê? Por ser o de maior perigo e o de maior glória. Os outros ficariam emboscados junto à rampa de Santos e em Alcântara.
 
 
Escapados os reis do primeiro fogo no Terreiro do Paço, cairiam seguramente em qualquer das outras duas emboscadas. O que me parece uma conclusão demasiado apressada, fácil, quase infantil. A partir do momento em que no Terreiro do Paço soassem tiros contra a carruagem real as circunstâncias mudariam imediatamente. E os itinerários seriam alterados, a guarda reforçada, todas as precauções certamente tomadas
Na adega da Quinta do Ché, de dentro de um barril, ultimadas as combinações, começaram a surdir pistolas e carabinas dos últimos modelos a ser distribuídas por todos os presentes.
 
 
 
Talvez seja interessante e dramático prosseguir, indo atrás dos conspiradores (mais uma vez com a devida vénia ao livro O Regicídio, A Contagem Decrescente, de Jorge Morais).
Era madrugada quando sairam da Quinta do Ché. Parara de chover. A azinhaga estava deserta. O Buiça, o Costa e o Frabrício, sem trocarem palavra, põem-se a caminho de Sta. Apolónia.
 
 
Em Sta. Apolónia tomam uma tipóia e chegam ao Terreiro do Paço. O Costa e o Fabrício convidam o Buiça para cear qualquer coisa. O Buiça recusa. Despedem-se. O Buiça mete-se pelas ruas da baixa.
Sabendo que ia morrer no dia seguinte – o que deve ser sensação arrepiante -, o Buiça escolhe as últimas acções da sua vida. Entra numa casa onde o aguarda uma pequena. Uma pequena que o narrador desta cena caracteriza como uma burguesinha ansiosa e tímida.  
        Esse dia 1 de Fevereiro de 1908 calhou a um sábado.
E esse dia 1 de Fevereiro de 1908 foi efectivamente o último dia da vida de pelo menos cinco pessoas.
 
 
O professor Manuel dos Reis Buiça sai de casa da amiga da baixa (a que chama Maria). São oito da manhã. Vai ao Colégio das Pedras Negras e começa a dar as suas aulas.
A meio da manhã diz ter que acompanhar um filho ao hospital. E vai mesmo a um hospital, o Hospital Inglês, então situado na Rua do Alecrim, e onde alguém lhe fornece um varino – um grande e largo capote.
Volta à casa de Maria, pega na carabina que lhe tinham fornecido e mete-a debaixo do capote.
 
 
Nessa mesma manhã de 1 de Fevereiro de 1908, o caixeiro Alfredo Luis Costa vai ter com um fulano.
- Temos umas contas a fazer - diz a esse fulano, segundo conta Raúl Brandão. - Ó homem deixe lá as contas, não é pressa, vimos isso depois.
Alfredo Costa ri-se.
- Depois… hoje vamos matar o João Franco. Esperamos por ele na Alexandre Herculano. O Buiça leva a espingarda e dá um tiro na orelha do cavalo, e eu atiro-me para dentro da carruagem e mato-o como um bicho. E talvez até fosse melhor no Terreiro do Paço, porque assim liquidavamos toda a cambada.
Na certeza de que não passará do dia seguinte, Alfredo Costa procurará ainda outro amigo e encarrega-lo-á de proteger uma sua irmã, seguro de que morrerá no dia seguinte.
- Ò homem, deixe-se disso, você vai mas é almoçar comigo…
- Não, amigo, tenho a certeza de que não escaparei.
 
 
Chega a ser tocante o amadorismo romântico-exibicionista destes tenebrosos conspiradores que contam aos amigos os atentados régios que tencionam praticar como se fosse a coisa mais natural desta vida.
Mas, pelo que sabemos hoje, talvez não se tratasse bem de amadorismo este exibir de intenções criminosas ao desbarato. Talvez fosse exactamente para chamar as atenções sobre indivíduos da arraia miúda, desconhecidos dos meios políticos, uns malucos, uns estabanados a quem um belo dia deu na cabeça matar um rei e um primeiro ministro. E isto por forma a manter encobertos os notáveis, os mandantes.   
Ao fim da manhã do dia 1 de Fevereiro, os cinco operacionais destacados na reunião da Quinta do Ché vão Avenida acima fazer uma espera a João Franco logo à saída de casa.
 
 
Chegam à casa de João Franco e não vêem a carruagem e percebem que o ditador já saíu e que mais uma vez trocara as voltas aos conspiradores. Tocante ingenuidade a destes conspiradores. Aliás, a acreditar em Raúl Brandão, um desses operacionais ter-se-á queixado do desleixo do Manuel Buiça na operação. O Buiça ter-se-ia descuidado com as horas e chegado tarde ao atentado. Bem português, vamos lá...  
 
 
O cóio principal dos mais assanhados conspiradores de 1908 era o Café Gelo – que ainda hoje existe, completamente desfigurado, já se vê, em relação ao tempo de que falo, e até ao tempo em que foi ponto de encontro de surrealistas, e até ao tempo em que eu próprio, de vez em quando, lá parava.
Tanto Buiça como Costa vão almoçar juntos – outra imprudência gritante, e suspeita, só lhes faltava andar com um cartaz a anunciar o que iriam fazer.
Almoçam juntos numa sala das traseiras do Café Gelo. Comem umas omeletas e bebem cerveja. E o Buiça escreve uma carta. Maria, escrevo-lhe horas antes de uma morte inevitável…
 
 
A minha querida Maria tinha, sem saber, uma poderosa rival – a pàtria – pela qual me sacrifico consciente de cumprir um dever. Vou morrer matando – ironia curiosa para muitos, talvez incompreensível e portanto condenável. O tempo porém tudo explica e cura, razão porque algum dia serei compreendido. Morte dolorosa me espera, certamente, mas o amor que voto à minha causa e a sua querida recordação me darão sobejas forças. Um último adeus e perdão. Manuel.
Estranha e trágica moral de certas pessoas: serem os paus-mandados para actos extremos a mando de outros, convencidos de estarem a sacrificar-se, como diz o Buiça, por uma causa, pela sua moral pessoal, quando na verdade, a coberto da luta pela sua causa, mais não fazem do que servir interesses que lhes são estranhos, que talvez sejam mesmo baixos, ou imorais. E tudo isso ao ponto de sacrificarem a vida.
Os tempos eram outros, sem dúvida. E muito mais trágicos.
No Café Gelo, nas últimas disposições, o Costa teimará com o Buiça. Não quer que ele se meta activamente na refrega.
- Não, você é melhor não, porque tem filhos.
 Mas o Buiça não se demoveu, e lá mandaram vir mais uma rodada de cerveja.
 
 
Falhado o primeiro objectivo, vão atacar o segundo. Vai para as quatro da tarde. Manuel Buiça e Alfredo Luis Costa descem a Rua do Ouro.
 
 
A muitos quilómetros da Rua do Ouro, numa taberna das proximidades da cidade da Guarda, dois criados de José Alpoim param o carro onde viajam para tomar um copo. Tinham ido levar o patrão a Espanha, fugido, e regressavam. Vêem as horas. Quatro da tarde.
 
 
Talvez já tocados pelos copos dizem alto e bom som:
- A estas horas, amigos, já não há rei em Portugal. A estas horas já o rei deve estar morto.
Porque, de facto, a essas horas, já a família real deveria ter chegado ao Terreiro do Paço.
Às quatro da tarde, Manuel Buiça e Alfredo Costa já estão no Terreiro do Paço.
 
 
O Costa desaparece entre as arcadas ocidentais e o Buiça fica ao pé do quiosque a conversar com o amigo conspirador Fabrício de Lemos. Um bufo da polícia, chega-se a ele, que é alto, tem umas barbas pretas compridas, enverga um capote enorme, é uma figura ameaçadora, que dá nas vistas.
 
 
- Que é que você está aqui a fazer?
 O Buiça sorri ao polícia à paisana. E responde-lhe suavemente:
- O mesmo que o amigo faz… desejo ver passar o nosso rei e saudá-lo como merece…
Em reunião secreta num hotel parisiense, entre políticos portugueses e revolucionários franceses, se deliberara o assassínio de  João Franco, sem dúvida, e também o do rei, dependendo das circunstâncias mais ou menos favoráveis. Esse encontro deve ter contado com os auspícios do movimento anarquista internacional, activíssimo nessa época por toda a Europa. É neste contexto anarquista que o ministro português em Paris informa Lisboa de um provável atentado.
 
 
Manuel dos Reis da Silva Buíça, viúvo, residente em Vinhais, distrito de Bragança…
O testamento do Buíça fora redigido, admissivelmente na sequência dos acontecimentos revolucionários do dia, logo a 28 de Janeiro de 1908, e reconhecido por tabelião.

 
Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber, Elvira, que nasceu a 19 de Dezembro de 1900, na Rua de Santa Marta, e que ainda não está baptizada nem registada civilmente, e Manuel, que nasceu a 12 de Dezembro de 1907 nas Escadinhas da Mouraria. Ambos vivem comigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4º andar esquerdo…
Minha família vive em Vinhais, para onde se deve participar a minha morte ou o meu desaparecimento, caso se dêem…
         Meus filhos ficam pobríssimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que sofrem…
Peço eduquem os meus filhos nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que eu comungo e por causa dos quais ficarão, porventura, em breve, órfãos…
 
 
Um dia destes estaremos no Terreiro do Paço por volta das cinco e meia da tarde.

 

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


                 NÁUFRAGOS DO ELEVADOR


Por alturas do verão de 1907, o cavaleiro fidalgo, visconde da Ribeira Brava convoca para sua casa outro monárquico, o conselheiro José Alpoim, e seus amigos políticos, todos dispostos a passarem-se para o lado republicano. Também entra na conspiração o Dr. Alberto Costa – e já vi que isto costas era o que não faltava nesta época, e costas bem largas. Alberto Costa era um impenitente boémio, muito conhecido em Lisboa pela alcunha de Pad’Zé.
 


            No dia 10 de Julho, vão encontrar-se com João Chagas à meia noite – que românticos – ao pé do coreto da Avenida, para combinarem as coisas.
 
 
      E do encontro sai um comité executivo com Afonso Costa, Alexandre Braga, o Dr. Egas Moniz e outros de menos renome.
 
         


             O tema da conspiração era obrigarem o rei D. Carlos a abdicar no filho mas velho. Quer dizer, os dois cabecilhas desavindos com a monarquia, Ribeira Brava e Alpoim, procuravam a colaboração dos republicanos para um golpe que, vendo bem, não pretendia mais do que reformar a monarquia vigente. Não parecia muito moral aos republicanos de raíz, chamemos-lhes assim, que de facto não se mostraram encantados com a ideia.
 
 
Não, o projecto teria de levar outras voltas. E se os senhores Ribeira Brava e Alpoim quisessem a colaboração dos republicanos o tema revolucionário teria de ser modificado. O objectivo teria de ser uma sublevação armada, exactamente para põr um fim à monarquia e não para lhe emprestar os meios de mais digna sobrevivência.
A ideia declarada de José Alpoim era corrigir a monarquia. Se o caso da lista civil não se resolvesse, se a constituição monárquica não se modificasse a contento dele, então passar-se-ia sem mais para a república. É isto mesmo que revela a um jornal estrangeiro. Disposto portanto, e publicamente, a negociar a sua condição de monárquico indefectível e frequentador assíduo da família real.
 
 
Os dissidentes monárquicos, no entanto, aspiravam largo. Uma renúncia de D. Carlos ao trono, com abdicação no filho mais velho, dar-lhes-ia novos campos de influência, manobra e intriga junto do novo soberano.
       Mas a realidade era uma só: a revolução que os republicanos estavam a querer puxar para o seu ideal era financiada pelos  monárquicos dissidentes, ali representados pelo Ribeira Brava e pelo Alpoim, já dispostos a encomendar e a pagar as espingardas. Por outro lado, a revolução podia falhar e os republicanos não queriam ver-se sozinhos nesse transe, e comprometidos em milho para pardais. Isso seria um berbicacho de todo o tamanho e um atraso considerável para os verdadeiros objectivos que tinham em mira.
 
 
Meus senhores, vamos é deitar abaixo a monarquia com o dinheiro e as influências dos próprios monárquicos, e logo a seguir instaurar uma república também com a colaboração dos monárquicos descontentes. Aí estava o tema para o próximo dia 28 de Janeiro de 1908. José Alpoim até já teria o seu tacho (a sua gamela) assegurado no novo regime: iria sem falta para o governo provisório a sair da sarrafusca.
 
 
       O armeiro Gonçalo Heitor Ferreira, com loja de espingardaria ali ao Rossio – que ainda existe -, é consultado no fim do ano de 1907 sobre armamento para iniciar uma revolução. Quem o consulta? Os capitalistas, os mecenas da revolução, José Alpoim e o visconde da Ribeira Brava.
 
 
Um lote de carabinas Winchester semi-automáticas, calibre 351, teria chegado a Lisboa ainda em Dezembro de 1907, sendo levantadas, mais uma quantidade de pistolas Browning 7.65, por Ribeira Brava em meados de Janeiro do ano seguinte. A polícia viria a apreender boa parte desse arsenal guardado num armazém ali para as Portas de Santo Antão, nas imediações do Coliseu.
 
 
D. Carlos e D. Amélia vão para Vila Viçosa nos princípios do ano de 1908. Lisboa fervia de intrigas, de boatos. A raínha telegrafara de Vila Viçosa ao seu primeiro ministro a indagar novas da capital e o seu primeiro ministro respondia-lhe nestes termos. Não há nada de novo, graças a Deus. Boatos e diligências dos republicanos para ver se fazem alguma coisa em désespoir de cause, mas temos recolhido favoráveis e tranquilizantes resultados nas nossas investigações. Sei que V. Majestades desejariam demorar-se por aí até ao fim do mês. Não vejo nisso inconveniente, desde que el-rei venha sempre que seja preciso; e mesmo a permanência de V.Majestades em Vila Viçosa até ao fim do mês serviria para mostrar que tudo corre sem alterações nem preocupações.
A imagem. Já nestes tempos a política a usar a imagem pública como substituto da realidade.
 
 
O poder e a profundidade de infiltração da Carbonária na sociedade portuguesa era de espantar. Com o rei em Vila Viçosa, a telegrafar dizendo que pensava vir a Lisboa no dia 19 desse Janeiro, a Carbonária intercepta-lhe as comunicações. Não sei se tal foi descoberto e se o rei foi informado, mas o certo é que adia a viagem para o dia 1 de Fevereiro.
 
 
Em face dos boatos, da tensão política que se acumula de dia para dia, o embaixador inglês põe a hipótese de a Inglaterra (aliás,diga-se, grande protectora da monarquia portuguesa) poder intervir. E apesar dessa tensão, João Franco escreve ao infante D. Manuel, que estava em Lisboa, e diz-lhe que tudo estava sossegado, nada havia a recear.
 
 
Na opinião de Rocha Martins, João Franco estaria na mais cândida das ignorâncias quanto ao que se passava em bastidores (estaria?, ou era só questão de imagem?) E quanto à polícia, bem, só a imprudência gritante de um ou outro conspirador podia trazer indícios do que se passava nas alfombras. Por exemplo, o comerciante Vítor dos Santos…
O comerciante Vítor dos Santos arregimentara para o lado dos revoltosos um compadre seu que era polícia. E leva-o lá a casa para exibir o seu poderio revolucionário, e o polícia, ao deparar-se com aquele arsenal de armas e explosivos, arregala os olhos, vê a vida a andar para trás, e adeusinho, passa muito bem, por aqui me sirvo, sai porta fora e vai chibar o caso aos superiores. E no seguimento desta denúncia, o comerciante Vítor dos Santos é preso, e, pior, são presos os grandes manitús republicanos, António José de Almeida, o grande orador, o messias da república, à cabeça, mais o chefe da carbonária, Luz de Almeida, e o fino publicista e conspirador João Chagas.
 
                                                             


            Mas, antes disso, temos um certo médico, de nome Gonçalves Lopes, um conspirador activíssimo, e taõ activíssimo era que guardava em casa grandes lotes de explosivos. A chatice é que, por indiscrição de alguém, o caso começou a ser voz pública e o médico diligenciava livrar-se de algum daquele material. E lembrara-se de um jovem igualmente activista que morava num quarto alugado na Rua do Carrião.
 
 
O jovem inquilino da Rua do Carrião era rapaz teso, assomadiço, dado à aventura, mal se poderia dizer que estava ali o ex-seminarista vindo das beiras, das bandas de Viseu. Chamava-se Aquilino Ribeiro.
 
 
É o Sublime Grão Mestre Carvoeiro, Luz de Almeida quem aborda o jovem Aquilino no Rossio. 9 de Novembro de 1907. “Temos de retirar do consultório do Dr. Gonçalves Lopes a metralha que lá tem. A polícia já veio fairar à escada. Convinha-me, uma vez que mora para os lados de S. José… numa rua que nem ao Diabo lembra, que a guardasse no seu quarto, por algum tempo. Pode ser, não?” “Eu moro, de facto, na Rua do Carrião. Mas vai dar à Rua do Passadiço, agora muito frequentada da bufaria por causa do José de Alpoim…e há outro inconveniente: a dona da casa é uma grande bisbilhoteira.” “Não tem uma mala que se feche à chave?” Plantou-se diante dos meus olhos o meu baú de embarcadiço […].
 
 
Dois caixotes de pólvora, pinhas de ferro, rastilho, carda miúda de sapateiro. Apareceram o Dr. Gonçalves Lopes e o comerciante Belmonte de Lemos. Diz Aquilino que se puseram a carregar os invólucros. Ele ficara-se a ver.
 
 
Conta Aquilino: introduziam pelo pequeno furo que cada pinha acusava no vértice, um pedaço de rastilho. Com a concha da mão tiravam a pólvora do cartuxo, vertiam para dentro do orifício da base e acabavam de enchê-lo com brocha. Depois fechavam o meato da base com uma rolha de pau e estava a granada de mão pronta a funcionar, era questão de lhe chegar o lume.
E a certa altura, bum! O quartito alugado da Rua do Carrião foi pelos ares.
Teriam carregado umas dúzias de bombas, produziu-se uma terrível explosão. Fiquei com os ouvidos atroados e só me apercebi que o Dr. Gonçalves Lopes rebolava no chão duas vezes e Belmonte crescia de olhos desvairados para mim, não sei se a querer dizer que lhe abrisse a porta para fugir. Deu três ou quatro passos e caíu em cima da cama que ocupava o meio do quarto.
A polícia registava: ontem, pelas 3 da tarde, quando três indivíduos estavam preparando explosivos com fins manifestamente criminosos, houve uma explosão, morremdo dois e sendo outro preso. O preso foi Aquilino Ribeiro.
 
 
Aquilino é levado para a esquadra do Caminho Novo, sob a ameaça de ir, degredado, dar com os costados em Timor. Pensa de imediato em evadir-se. Estuda a segurança do cárcere. Chega a conclusões. Precisa de um automóvel do lado de fora à sua espera. Quem lhe emprestará um automóvel insuspeito numa cidade onde os automóveis ainda se contavam pelos dedos? Os carvoeiros planeiam atacar a esquadra para o libertar pela força. O intermediário que o visita na prisão é o Alfredo Costa - um dos próximos assassinos do rei.
 
 
Ninguém disponibilizou um automóvel. Ninguém se queria comprometer. Também não foi preciso. Nem foi preciso o golpe de mão que os carvoeiros preparavam e que poderia, de caminho, servir de arranque à revolução. O jovem Aquilino Ribeiro evade-se sozinho, embora de certeza ajudado pelos carvoeiros. Num domingo, 12 de Janeiro. De noite. Chovia água se Deus a dava. Aquilino chega à baixa sem novidade. Está cheio de fraqueza. Entra numa taberna ainda aberta e manda abaixo uma meia desfeita de bacalhau com meio litro de tinto para empurrar.
 
 
O contacto, Alfredo Costa, vai buscá-lo à taberna e leva-o para umas águas furtadas na Rua Nova do Almada que garante ser à prova de bufo. Aquilino vai pôr-se à escrita. Um folhetim. Os Bandidos da Serra da Gardunha. Um libelo contra João Franco, que é natural daquelas bandas, e cujos antepassados, na história (não sei se na realidade), eram autênticos salteadores de estrada.
 
 
A revolução do elevador da Biblioteca estaria aprazada para 28 de Janeiro, por volta das 4 da tarde. O teatro dos acontecimentos seria a baixa lisboeta. Seria tomada a Câmara Municipal e Afonso Costa mais o monàrquico Ribeira Brava dariam a cara como chefes do comité de revolução. Revolução que antes de mais visava derribar o governo ditatorial de João Franco.
Se a 21 de Janeiro alguns dos chefes são presos, a 27 desse Janeiro a revolução está pronta a servir. O assassínio de João Franco é decidido em casa do conhecido comerciante Sr. Grandela – um carbonário de marca.
 
 
Os republicanos estão em pulgas. Bernardino Machado emite um comunicado e fala na alma livre e heróica do povo português. Ih, senhores onde tudo isso já vai…
 
 
Afonso Costa é o chefe e o máximo estratega da revolução. Quem escolhe para seus lugares-tenente? Ora bem: dois monárquicos: José Alpoim e o visconde da Ribeira Brava. Os três irão para o elevador da Biblioteca e por lá aguardarão o sinal. Dado o sinal, partirão daí, por-se-ão à frente do povo miúdo e marcharão ao assalto da Câmara Municipal. Da varanda da Câmara Municipal proclamarão a república.
 
 
D. Carlos, felicíssimo da vida e ignorantíssimo do que se passava na realidade, lá andava por Vila Viçosa na sua faina predilecta, em batidas às lebres e a armar às perdizes.
 
 
Estratégia e táctica revolucionárias. Pois bem, uma revolta do povinho ensaiada no Terreiro do Paço e na actual Praça do Município - então chamada de Largo do Pelourinho. Um assalto em armas ao conselho de ministros, abatendo implacavelmente a tiro os membros do governo que por lá estivessem. Mas depois… foi com certeza ponderada a premência de tratar primeiro do protagonista maior dos descontentamentos, João Franco. Os militares envolvidos colocaram essa acção à cabeça.
É que se as coisas dessem para o torto e João Franco escapasse vivo, a repressão sobre os militares seria brutal. Então, muito bem, os carvoeiros que eliminassem João Franco antes de mais conversa. Depois sairiam os militares dos quarteis para assaltar o que fosse preciso. E também por uma questão de moral.
 
 
Uma questão de moral, sim. A intervenção da tropa na revolução dar-lhe-ia outra moral, dar-lhe-ia um carácter institucional, seria para o povo ignaro e farto de intentonas falhadas uma garantia de seriedade, de autenticidade, de autoridade. E também desarmaria quaisquer veleidades de reacção.
Mas na entrevista concedida a um jornalista francês, D. Carlos tinha dito: em todos os países, para fazer uma revolução é necessário ter-se o exército consigo. Ora o exército português é obediente à constituição, é fiel ao seu rei. Lealmente, conservar-se-á a meu lado. A maior parte dos oficiais são meus camaradas; servi com eles; conhecem-me. Não tenho a menor dúvida sobre a sua dedicação.
 
 
O braço armado da república, os carvoeiros, os carbonários, tinha por missão neutralizar as cavalarias governamentais, os quarteis do que hoje é a Guarda Republicana, o Cabeço de Bola, o Carmo, a cavalaria municipal, que aquartelava ali no Largo dos Lóios. Interferiam nas comunicações, neutralizando-as, e tomavam o paço.
 
 
O elevador da Biblioteca.
 
 
Era isso mesmo, um elevador. Que hoje não existe. Que ia da Praça do Município até lá acima, às proximidades do que é hoje (aliás, foi) o Governo Civil e a escola de Belas Artes. E claro que se a bernarda corresse bem não era grande a distância até à Câmara Municipal – que era então onde ainda é hoje. Era só descerem no elevador e estavam no largo, e facilmente irromperiam Câmara dentro até à grande varanda onde triunfalmente anunciariam a boa nova da república. Às duas da tarde, bem almoçado, José Alpoim e os seus dirigem-se à parte de cima do elevador.
Chegados os conjurados ao elevador, vão enfiar-se num cubículo existente, e do qual um deles conseguira a chave. E chegam outros camaradas, Afonso Costa, Egas Moniz, os viscondes de Pedralva e de Ameal e outros menos famosos. Ficam à espera.
 
 
Não sei se estavam sentados ou de pé. Sei que, se estavam à espera, deveriam ter esperado sentados, porque esperaram toda a tarde pelo sinal de avançar. Só depois de chegado esse sinal – não sei qual – poderiam avançar à confiança direitos à Câmara.
E o sinal não há meio de chegar. Que raio de passa?
Mudança de cenário. 28 de Janeiro de 1908. 3 horas da tarde. O grupo dos comandos carvoeiros, o chamado grupo dos 18, tem o encargo de avançar para a Avenida e na Avenida preparar a emboscada à passagem de João Franco, que mora na Alexandre Herculano e que regularmente faz aquele trajecto depois do almoço até ao seu gabinete. 
 
 
Não sei se por algum espírito santo de orelha transmitido pela polícia secreta nesse dia João Franco escolheu outro itinerário e não passou na Avenida. Quando a tarde se aproxima do fim, sabe-se que os quarteis, alertados, entravam, de prevenção e piquete com a guarda reforçada. João Franco estava vivíssimo da costa. A monarquia estava como se nada tivesse acontecido – porque nada realmente aconteceu -, os grupos revolucionários já tinham dispersado. Mas os papalvos do elevador lá continuavam estupidamente metidos no buraco, à espera de ordens para irem proclamar a nova ordem.
Os homens do elevador da Biblioteca eram os náufragos daquele navio revolucionário. Começavam a desesperar. Ninguém lhes dizia nada. E eu chamo-lhes papalvos porque, espertíssimos conspiradores de água doce, não tinham percebido ainda que nesse dia o elevador não estava a funcionar. Caía a noite.
 
 
Um simples polícia de giro, que tinha visto uma quantidade de homens a entrar para o elevador que ele sabia não estar em funcionamento, cheirou-lhe a esturro. E comunicou a ocorrência.
 
 
E aparece a ramona no alto do elevador. O pré-excelso Dr. Egas Moniz vai a correr esconder-se numa retrete. Os outros não têm tempo. Ribeira Brava ainda diz mais ou menos parvamente aos agentes da autoridade que tinha vindo a Lisboa ver a bola, estava ali como um vulgar passageiro do elevador e, que horror!, nada tinha a ver com revoluções. Passageiro de um elevador que por todo o dia não trabalhou, amigo? É preso. Afonso Costa também vai de saco. Egas Moniz… vamos embora para a esquadra, quero lá saber que daqui a trinta anos você venha a ganhar o Prémio Nobel da Medicina. Vai o Pope, vai o Cassiano Neves. Todos. Toca a andar.
       Só falta saber onde pára o Alpoim.
 
 
Noite dentro, há grupos de carvoeiros dispersos na cidade a tentar assaltar esquadras de polícia. Por nada. Porque sim. O corpo só lhes pedia acção. Lisboa era precorrida de lés a lés pela guarda a cavalo à caça dos anarquistas que procuravam actuar em desespero de causa. Há um morto lá para os lados da Politécnica.
João Franco esfrega as mãos, contente que nem um rato. Apanhara os náufragos do elevador da Bibloteca. Tudo caça grossa. E manda a tropa sair para a rua. E manda proceder a rusgas na cidade. E manda prender mais gente. E manda calar a imprensa. É o estado de sítio.
 
 
Mas onde diabo se meteu o Alpoim?
Mais astuto, pelos vistos do que os outros, ou com cumplicidades já antes aparelhadas, Alpoim descobrira uma porta lateral do elevador, e ele, o Ameal e o Pedralva passaram-se para um prédio ao lado. Por sinal, casa de um outro dissidente monárquico, um tipo da marinha. Depois, uma vez desembaraçados das armas em casa do tipo da marinha, cada um deu à sola para seu lado. O Alpoim apanhou um trem de praça e foi para casa. Em casa, palpitando que o fossem engavetar mandou dizer ao seu amigo administrador das Alfândegas, Teixeira de Sousa, que ia asilar para a casa dele em S. Sebastião.
 
 
Ora, não tardou mesmo nada para que a casa do Teixeira de Sousa em S. Sebastião ficasse cercada de polícias. Cercada por todos os lados, menos por um, o lado do jardim. E agora é o Teixeira de Sousa que sai de casa feito doido e vai ver se encontra o Alpoim na António Augusto de Aguiar.
 
 
E encontra mesmo. E encaminha-o para sua casa, mas pela porta do cavalo. O Alpoim tem que se explicar: estava metido numa estrangeirinha de uma revolução que tinha dado em prego. Teixeira de Sousa leva-o para um quarto dos fundos onde já está outro tunante escondido, o director do jornal O Primeiro de Janeiro.
 
São 10 da manhã do dia 29 de Janeiro e a polícia não arreda pé das proximidades da casa do Teixeira de Sousa. O Teixeira de Sousa vê o caso mal parado e sai e vai à residência do Alpoim, lá para os lados da Rua do Passadiço, a qual também têm polícia a vigiá-la. O Teixeira de Sousa bate. Abrem-lhe a porta. Quero falar com o Sô Zé Alpoim, ai ele não está, diz a sopeira. Caluda, com licença. Entra e fica à conversa com a mulher do Alpoim. Quer fazer crer aos polícias lá fora que o Alpoim afinal está em casa.
 
 
Volta a casa, a S. Sebastião, e antes de entrar fala com o comandamte da guarda, ouça, você veja lá se me toma bem conta da casa que eu não quero ser incomodado pelos revolucionários. O comandante da polícia pensa, que se ele tem medo dos revolucionários é porque não tem nenhum lá em casa. Dá resultado. A polícia retira-se de S.Sebastião e vai de escantilhão para a Rua do Passadiço vigiar a casa do Alpoim.
 
 
Ao fim desse dia 28 de Janeiro de 1908, D. Carlos, em Vila Viçosa, toma conhecimento do que se passou. E a 29 recebe o ministro da Justiça que lhe apresenta um relatório e um projecto de decreto.
Factos dos últimos dias vieram demonstrar que as tentativas e propósitos revolucionários e criminosos, longe de afrouxarem, se têm mantido obstinadamente e agravado, a ponto de ser urgente o afastamento dos principais dirigentes e instigadores da pertinaz conspiração contra a paz pública e a segurança do Estado. Nesta ordem de ideias, procuramos com o presente diploma habilitar o governo com a faculdade de expulsar do reino ou fazer transportar para uma província ultramarina aqueles que, uma vez reconhecidos culpados, importe à segurança do Estado, tranquilidade pública e interesses gerais da nação afastar sem mais delongas do meio com que se mostraram contumazmente incompatíveis.
Era um decreto que castigava severamente com degredo os revoltosos. E que requeria a assinatura do rei.
E o rei assinará.
 
 
E houve quem dissesse que ao assinar o decreto que era uma espécie de apoteose do regime ditatorial de João Franco, D. Carlos teria lançado importante acha para a fogueira que o haveria de queimar na sazão ardente de 1908.